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Nem nunca. Nem sempre.



















Há dias ouvi isto. Nem nunca. Nem sempre. Como não estava em circunstância de registar no meu caderno pequeno, fui repetindo mentalmente. Nem nunca nem sempre nem nunca nem sempre. Um corredor silencioso. Depois escadas. Mais um corredor silencioso. E creio que aconteceu o inevitável, enquanto ia dizendo as palavras por dentro. Guardei-as. E pensei nelas. Muito. Não foram embora. Não me esqueci, depois de as escrever finalmente. Fui pensando em todos os meus sempre. Em todos os meus nunca. E a esses acrescentei os para sempre. E os nunca mais. Depois, cheguei à conclusão de que os para sempre e os nunca mais é que são perigosos. Porque obrigam. Implicam consequências. Pressupõem fazer os (im)possíveis por ou deixar cair e isso ser uma ferida que não se fecha. Clausuras. Labirintos. Paredes que inventamos como intransponíveis. As palavras não são (mesmo) matéria porosa. O sempre e o nunca podem ser transformados só em coisas boas, se assim quisermos. Basta dar voltas às palavras e colá-las a tudo o que queremos que seja sempre e a tudo o que não queremos nunca. Bem sei que a vida é que dá as voltas à séria e que troca as voltas muitas vezes. Mas querer não faz mal nenhum. O mal é sermos prisioneiros. 
Isto do sempre e do nunca presta-se mesmo a pensar a comida e as suas derivações. No meu caso, começa por isto: sempre (lá está a palavra:) pensei que não tinha paciência nem talento para fazer massas. Farinha por todo o lado. Mãos a colar. A minha impaciência a fazer caminho e uns minutos depois, dava por adquirido que aquela cena não era a minha cena. Lavava as mãos e esquecia o assunto massas para tartes e outras coisas de que as pessoas que gostam de fazer comida gostam. O imaginário associado à cozinha também está cheio de falácias. E de muitas histórias. Lá está, declinações do nunca e do sempre a funcionar. Outra irritação tinha que ver com a manteiga nas receitas de bases para tartes. Muita, quase sempre. E temperamental, a obedecer a procedimentos. Eu gosto que as coisas sejam simples e sem muitos parágrafos, porque a vida já está demasiado cheia de complicações e de parágrafos. Basta esse imponderável enorme, creio.
Por isso, quando num dia de muito calor no Verão passado, me apeteceu sem mais fazer uma tarte de cebola, com uma base que tivesse azeite em vez de manteiga, foi inevitável lembrar-me de todas as vezes em que me zanguei com este universo de farinhas e assim. Queria tentar replicar uma receita que trouxe de uma viagem a Maiorca. Ao miolo rural da ilha. Um lugar tranquilo e muito distante da contaminação perversa que estragou muito. Deram-me a provar uma tarte de cebola que, para mim, permaneceu como a memória daquele lugar. A comida pode ser/dizer a alma de um sítio. O sol doce de Maiorca. Os ocres e os verdes secos. As pedras quentes das ruas. O espírito livre e ligeiramente utópico das pessoas. Tudo isso numa fatia de tarte de cebola. E sem lastro do sabor (excessivo) a manteiga. Ficou-me na ideia. E aqui está. Depois de a fazer muitas e muitas vezes. Bem posterior ao jantar de Verão em que a servi pela primeira vez. Feliz, por ter ultrapassado as minhas questões com isto de fazer massas para tartes. Depois de se ter tornado uma das entradas preferidas do meu filho. Bem no tempo e a tempo das cebolas novas. E com imagens de agora, da Primavera na serra, a caminho da aldeia da Pena. Todos os anos renasce mais bela. E o tanto que isso diz. Sempre, a beleza mágica das montanhas que se renovam, que encontram um sentido para o tempo que passa. Tão bom que isto tudo seja aqui. Tão bom que estas cores todas estejam a acontecer aqui perto. Com aquele poder silencioso dos grandes espaços. Tal e qual como com os livros. 
Para mim, os livros são também grandes espaços. Todas as noites. Depois de todos os ruídos. Depois de todas as coisas e sítios e pessoas. Sempre o livro que estiver a ler. Para esta página, este livro. Tive a sensação de estar sempre a tentar compreender discursos e narrativas que foram concebidos para não serem compreendidos inteiramente (seja lá o que isso for). Senti um pouco do que senti quando li os simbolistas pela primeira vez, algures aos dezassete anos. Metáforas e imagens e símbolos. Uma visão satírica do imaginário dos parques de diversões e isso ser uma fuga calculada e circunscrita a uma realidade da qual não se consegue (ou não se quer) escapar. Um enorme e labiríntico parque temático, algumas vidas. Para prevenir, é melhor dizer que, se se ultrapassar o primeiro capítulo, está tudo bem e vamos conseguir chegar à última página:) Deixo este texto sobre. Gostava de deixar em português. E lamento. Mas só encontrei um texto muito breve e muito preguiçoso que não justifica a ligação. Uma coisa que justifica é o vinho que fica com esta comida que vai bem com brancos ou com tintos. E sim, fica maravilhosa com espargos grelhados. Há coisas que parecem ter nascido umas para as outras. 

Tarte de cebola, bacon e pinhões 
NB: A versão vegetariana desta tarte é igualmente deliciosa. Basta omitir o bacon. E pode ser servida quente ou fria, que vai correr bem das duas maneiras. 

Para a massa:
300g de farinha + 3 ovos inteiros + 1 gema para pincelar + 4 colheres (de sopa) de azeite + meio copo de água morna + sal q.b. 

Para o recheio:
4 cebolas (médias) + 150g de bacon + sal, azeite, vinagre de arroz e pinhões q.b. 

Numa taça, coloca-se a farinha e abre-se um espaço no meio. Aí, coloca-se os ingredientes restantes. Vai-se trabalhando com as mãos passadas por farinha. Basta uns cinco minutos, até que as mãos fiquem sem colar e até que a massa esteja maleável. Faz-se uma bola (ou um coração:), envolve-se com película aderente e deixa-se descansar durante meia hora (pelo menos). Depois, é só estender com a ajuda de um rolo da massa, forrar uma forma, picar com um garfo, pincelar as margens com gema e levar ao forno durante cinco minutos. Decorrido esse tempo, retira-se e cobre-se com a cebola e com o bacon. Basta levar uma sertã ao lume, com um fio de azeite e o bacon cortado em cubos pequenos. Deixa-se estar durante uns dois minutos, acrescenta-se a cebola, um pouco de sal e vinagre de arroz e envolve-se. Quando ficar translúcida, retira-se do lume e coloca-se por cima da massa. Vai ao forno a 180ºC, durante cerca de 15 minutos. Pouco antes de servir, pinhões levemente tostados numa sertã seca. 

A música é dos Kings of Leon. Waste a moment. 

Persistência.













Uma das coisas que isto de fazer comida lembra frequentemente é que é preciso persistir. Tentar uma e outra vez até chegar ao ponto que, para nós, será o ponto. Podemos retirar este e outros sentidos de outros domínios das nossas vidas. Mas, no meu caso, por gostar tanto de fazer comida, os sentidos maiores vêm quase sempre desta minha dimensão. Não sei como é que seria, não fosse esta alegria tão persistente. Mas, conhecendo-me, acho que iria buscar sentidos onde fosse/pudesse/quisesse:) 
Esta receita que fica hoje fez-me pensar mais uma vez nisso de ser preciso tentar. Sendo que não sou da ingenuidade de achar que se deve persistir em tudo e sempre. Nada disso. Saber continuar é, para mim, tão importante quanto perceber o momento exacto em que se deve desistir e deixar ir com o vento. Mas na comida, esse esforço de persistência dá (quase) sempre bons resultados. Tirando a minha incapacidade para lidar com alcachofras e outras coisas do género, raramente me apetece desistir de um ingrediente ou de uma ideia qualquer. 
Isto para dizer que, até uma determinada altura, achava que fazer bolas de carne não era a minha cena. A partir deste momento que já partilhei aqui, essa ideia mudou. Mas ocorreu-me que poderia ser ainda mais simples, ainda mais rápida de fazer, uma bola de carne. Estava certa. Maravilhosamente certa. Retirei uns ingredientes, introduzi outros e, muito importante, coloquei tudo numa forma de bolo inglês. Fica mais elegante, mais fácil de partir e precisa de menos tempo de forno. Por isso, tal como aconteceu nessa outra partilha, fiz esta versão flash várias vezes, para conseguir dizer bem as coisas aqui e para não fazer asneira:) 
Gosto mesmo de comida neste espírito pragmático-poético de juntar ingredientes numa taça, bater e levar ao forno, com esperança de coisas boas, vinte minutos depois. É isso. Servida com coisas de Outono. Cantarelos e boletos, frutos da terra e da generosidade de quem os colheu. Ou só com um pouco de azeite e uns pós de orégãos. E esta comida tem também o detalhe de poder ser transformada num presente efémero. Uma folha de papel vegetal, um bocadinho de cordel e aquela coisa boa de saber que algures alguém há-de gostar mesmo de receber esta alegria de comer. Junto a isso, as primeiras tangerinas do tempo frio, vindas de uma árvore próxima. Com aquele jogo delicioso entre a acidez e a doçura irrepetíveis de um Novembro irrepetível. As árvores também ensinam aquilo da persistência. Como no título da peça de teatro que fica como frase lapidar. As árvores morrem de pé. Exemplos silenciosos de persistência orgulhosa. Mesmo assim. 

Bola de carne (mesmo) muito rápida:) 

100 g de bacon + metade de uma chouriça + 1 cebola (média) picada + 1 pimento italiano (pequeno e vermelho) + 4 ovos inteiros + 200 g de farinha + meio copo de leite + 3 colheres (de sopa) de azeite + flor de sal, pimenta preta, salsa e coentros q.b. 

Primeiro, a parte (linda) de fazer aquele picadinho delicioso: cebola, pimento, bacon, chouriça e as ervas. Tudo picado e numa sertã, com um pouco de azeite e nenhum sal, porque a chouriça e o bacon encarregar-se-ão dessa parte. Quando a cebola ficar translúcida, retira-se a sertã do lume e reserva-se. Entretanto, numa taça, coloca-se os ingredientes restantes (a farinha, os ovos, o leite, o azeite, a pimenta preta e a flor de sal) e bate-se até ficar com bolhinhas (mais ou menos três minutos, com a batedeira na velocidade máxima). Quando esta mistura estiver no ponto, junta-se o picadinho que ficou na sertã, envolve-se com uma colher de pau, coloca-se numa forma de bolo inglês (a que uso tem estas dimensões: 15 x 30 x 7) e leva-se ao forno durante 20 minutos. E está.

A música é dos New Order. Uma daquelas músicas que se reconhece aos primeiros segundos. Regret. 


Deixa lá.















Todos temos momentos destes, não? De deixar ir. De deixar cair. Dizemos interiormente: deixa lá. Costumava pensar que era uma expressão só passiva. Qualquer coisa de resignação que me afastava. Temos a mania de agir sobre tudo e mais alguma coisa. De compreender não sei o quê, atendendo a circunstâncias e contextos. Entender. Perceber. Acolher. Integrar. Perdoar. São exercícios muito inteiros. Muito necessários. Um mundo sem estes verbos seria só sem luz. Por isso é que sermos capazes de conjugar estes verbos é tão importante. Porque todos perdemos, quando um de nós diz que não quer esta conjugação. Que não quer uma vida com este bocadinho de gramática. 
Mas tenho percebido que também é muito importante saber quando chega aquele momento "deixa lá". Pode ser um "deixa lá" imediato. Do género de nos atingir. Ou então, pode ser um "deixa lá" macerado. Que já fez um caminho longo dentro de nós. Em qualquer dos casos, o meu recurso mais precioso é este. Está aqui. Muitos desses momentos "deixa lá" encontraram neste lugar uma morada. Sinais de que esses momentos não foram só lugares interiores de resignação a todas as coisas que são como são. Sinais luminosos. De uma vontade de querer muito transformar coisas menos boas em coisas que sejam só boas. E que fiquem. Ou que andem por aí, essas coisas.

Bolo salgado de iogurte (com acelgas e bacon) 

1 iogurte natural + 5 ovos + 5 copos de iogurte de farinha + 1 copo de iogurte de óleo + 1 copo de iogurte de leite + 8 folhas de acelgas + 6 fatias de bacon (cortadas em cubos) + 1 cebola média (picada) + metade de 1 pimento amarelo (cortado em cubos) + sal, pimenta preta e queijo Parmesão ralado. 

Primeiro, coze-se as folhas de acelgas em água com sal (só são colocadas na água depois de começar a fervura e deixa-se estar uns 3 minutos). Retira-se, escorre-se e reserva-se. Entretanto, leva-se ao lume a cebola, o pimento e o bacon, num pouco de azeite. Deixa-se cozinhar durante cerca de dez minutos. Retira-se do lume e reserva-se. Depois, mistura-se todos os outros ingredientes e bate-se muito bem. Acrescenta-se as acelgas e os outros ingredientes (a cebola, o bacon e o pimento). Bate-se mais um bocadinho. Rectifica-se de sal, se necessário e leva-se ao forno a 170º c durante uns 40 minutos. 

NB: Este bolo fica muito bom servido no dia em que se faz, mas é ainda melhor no dia seguinte, ligeiramente tostado no forno.

Com um dos momentos "deixa lá", uma música que tem uma cadência quase infantil, doce. Banda sonora para momentos de deixar e pronto. Ou para os momentos que quisermos:)


Guia para um final (de dia) feliz.







Ocorreu-me que o mascarpone devia fazer com que os meus bolos salgados de legumes ficassem ainda mais leves. E sim. Muito mais. O único problema é este: desaparecem num ápice. Manda a prudência que sejam feitos e escondidos de imediato. E, muito importante, nunca partir em pedaços com antecedência e colocar na mesa onde vão fazer alguém feliz. Vão desaparecendo misteriosamente e corre-se o risco de não haver nada. Talvez vestígios, destroços, migalhas. Se se obedecer a estes mandamentos, corre tudo bem:).
Tirando o aspecto de serem do género de desaparecer rápido, estes bolos são cheios de qualidades. Primeiro: são inacreditavelmente simples de fazer. Sabem bem das duas maneiras: quentes ou frios. São leves, mas saciantes e ficam perfeitos com uma salada. Podem ser o início. Ou prato principal de uma refeição informal. Com uma sopa, no final de um dia cansativo, pode fazer com que nos sintamos reconciliados com a humanidade:). Nas imagens, sopa de feijão verde. O Verão sabe a feijão verde. 

Bolo salgado de mascarpone e espinafres
6 ovos inteiros + 1 embalagem de mascarpone + 200 g de espinafres + metade de um pimento vermelho + 1 cebola ralada + 3/4 colheres (de sopa) de farinha + azeite, sal, pimenta preta, coentros, salsa e parmesão q.b.
Primeiro, salteia-se os espinafres e o pimento num pouco de azeite. Reserva-se. Depois, numa taça larga, coloca-se os outros ingredientes e bate-se até ficar com bolhinhas. Entretanto, acrescenta-se os espinafres salteados com o pimento e envolve-se. Leva-se ao forno durante uma meia hora, numa forma untada com manteiga e polvilhada com farinha. Serve-se cortado em pedaços. Quente ou frio. 

Sopa de feijão verde
1 cebola grande + 1 batata + 1 courgette + 4 cenouras + 1 fatia de abóbora-manteiga + 20 vagens de feijão verde + azeite e sal q.b.
Faz-se um refogado com a cebola, num pouco de azeite. Depois, acrescenta-se a batata, a courgette, as cenouras e a abóbora, cortadas em pedaços. Cobre-se com água, tempera-se com sal e deixa-se cozer. Depois de começar a ferver, fica durante meia hora. Passa-se, até ficar creme. Depois, junta-se o feijão verde, cortado. Deixa-se estar durante uns dez minutos. Rectifica-se os temperos (mais sal e azeite, se necessário) e serve-se.

Para tudo ser (ainda) melhor, esta música. 


Incidente de recusa.




























Com um bocadinho de tempo e as coisas encontrarão lugar. Tem andado tudo muito depressa. O mundo. O mundo é que anda muito depressa. Difícil de acompanhar. Quase não dá para entender muito bem. Imagino as perplexidades todas, antes deste tempo que caminha em passo apressado. Ainda assim, era capaz de ser um bocadinho menos complexo. A sensação é a de adormecermos a saber umas coisas. A contar com outras. E depois não. A sensação é a de ouvirmos uma coisa enquanto almoçamos a caminho do resto do dia, a esperar por favor que à hora de jantar alguma coisa tenha permanecido quieta um bocadinho. Raramente é assim. Aquilo que um tribunal diz ser de uma maneira e não poder ser de outra, afinal não é bem assim. Pode ser passível de um recurso qualquer, de um incidente de recusa obscuro. E um senhor com ar sério pode dizer que não conhece bem o senhor de aspecto sinistro que andou a fazer pela vida. Mas a seguir, o que vem sempre a seguir. Diálogos surdos e em diferido. Comissões que justificam a existência de pessoas que também andarão a fazer pela vida. Audiências. Comentários. Recados. Declarações. E mais palavras que não significam nenhuma das entradas dos dicionários. Plásticas. Moldáveis. Pena não ser como nos tribunais. Pena não poder dar para um ou outro incidente de recusa. Dava jeito.
Um livro deixa isto tudo lá para trás. Um livro faz-nos estar muito quietos no lugar onde escolhermos estar muito quietos. Um livro sobre a morte que nos diz que não é para ter medo na capa. A ver se lá dentro se chega à mesma conclusão. Seja o que for que isso signifique. Talvez signifique coisas diferentes para cada um. Estará certo, isso.
Também ajuda isto. Fazer um bolo salgado para aqueles minutos de antes de jantar. Com um livro por perto. Para nos lembrarmos do que realmente importa. Sermos capazes de fazer comida que nos faz bem e aos outros. E do silêncio que só acontece assim. A ler um livro que interpela sem fazer barulho.

Bolo salgado de aipo e alho francês

2 talos de aipo + 2 alhos franceses + 10 azeitonas pretas + 5 ovos + 200 g de farinha + 100 ml de leite + sal, azeite, pimenta preta e queijo parmesão ralado q.b.

Faz-se um refogado com o aipo, o alho francês e as azeitonas (picadas). Leva-se ao lume em azeite e ligeiramente salpicado com sal e um pouco de pimenta. Basta 10 minutos para esta parte. Reserva-se. Entretanto, bate-se os ovos com a farinha, o leite, um pouco de sal e pimenta. Quando houver bolhinhas, acrescenta-se os legumes e o parmesão ralado. Integra-se com uma colher e leva-se ao forno durante uns vinte minutos.
Assim que estiver pronto, corta-se em quadrados. E a seguir, distribui-se felicidade tangível. Ou de comer. Felicidade que se come cortada aos pedaços.  Sem nada de incidentes de recusa.

Um pouco de dieta mediterrânica.





























Não quis adiar muito mais esta espécie de apologia. Li há dias que as crianças portuguesas são as mais obesas da Europa. Que pelo menos quatro vezes por semana consomem fast food. E bebem refrigerantes. E não comem sopa regularmente. E não comem legumes. A questão colocada no final era se estes números significavam o fim da dieta mediterrânica. Dos hábitos sem memória que nos definem enquanto povo. Coisas que sempre fizeram com que fôssemos conhecidos por consumir mais peixe do que carne. Que fôssemos um país de sopas. De legumes integrados em arroz carolino. E de consumir de acordo com a estação do ano. Não gosto de discursos virtuosos. Em nenhum domínio. Nem de exemplos mais ou menos edificantes ou pedantes. Mas é um dado que só possibilita perplexidade. Este de as nossas crianças consumirem tão regularmente coisas que deviam ser excepção. E então, uma entrada só para isto. Para três receitas aprovadas pelo meu filho. Que come sopa todos os dias. E as outras coisas que são postas à mesa. E saber que apesar desses esforços diários, devo rever algumas cedências. Sem radicalismos. Em todo o caso, a sensatez permite muitas possibilidades. Como fazer lasanha de legumes, por exemplo. Ou um bolo com vegetais integrados. E sopa. Sempre uma sopa.

Este bolo é uma possibilidade. Pelas possibilidades que oferece. É quase sempre uma entrada. Mas também pode ter honras de prato principal. E o melhor, pode resultar das combinações improváveis que apetecer. Neste dia foi assim.

Bolo salgado de legumes

6 ovos inteiros + 1 tigela (grande) de farinha + meio copo de leite + sal e pimenta preta + dois alhos franceses + metade de um pimento vermelho + um ramo de cebolinho + queijo parmesão ralado.

Antes, salteiam-se os legumes numa frigideira. Só com azeite, um pouco de sal e pimenta. Reserva-se. Entretanto, numa taça, estão os ovos, a farinha, o leite, o sal e a pimenta. Bate-se tudo muito bem até haver bolhinhas. Junta-se os legumes salteados, o queijo parmesão e mais um pouco de pimenta. Leva-se ao forno durante cerca de 25 minutos. Serve-se com mais legumes. E fica bom da maneira que quisermos: quente ou frio.

Sopa de cebolinho:

2 courgettes + 1 batata média + 6 cenouras + 1 cebola + cebolinho (o que quisermos) + sal e azeite.

Cebola e azeite, primeiro. Um bocadinho ao lume. Junta-se depois os outros legumes. Acrescenta-se água e sal. E deixa-se cozer durante uma meia hora. Depois de se passar muito bem, junta-se o cebolinho picado. Desliga-se. Se necessário, mais um pouco de sal e azeite.

Lasanha de legumes

Uma embalagem de massa fresca para lasanha (mais prática e rápida) + 1 cebola picada + cogumelos frescos cortados + bróculos + pimento vermelho cortado em cubos + 1 courgette cortada em cubos pequenos + cebolinho picado + leite (cerca de meio litro) + sal + farinha Maizena + uma colher de manteiga + pimenta preta + queijo mozzarella.

Primeiro, o refogado com os legumes. Num pouco de azeite. E, em vez de fazer o creme à parte, tudo junto. Para ser mais rápido. E para evitar mais loiça suja. Então, depois de os legumes estarem cozinhados, junta-se o leite e a manteiga. Deixa-se aquecer e mistura-se a farinha Maizena, até adquirir a consistência de creme. Tempera-se com sal e pimenta a gosto. Depois, pincela-se o tabuleiro de ir ao forno com um pouco de azeite. E junta-se orégãos. As folhas de lasanha a preencher o fundo. Mistura de legumes e creme e um pouco do queijo. Repete-se esta sequência até se acabarem os ingredientes. Finaliza-se com queijo mozzarella. E vai ao forno durante meia hora.

E ouve-se sempre aquele argumento. O de não se ter tempo. Para fazer uma sopa. Ou uma refeição que não seja de microondas. Não será só uma questão de tempo. Aí, qualquer mãe que trabalhe, sabe que nem sempre se está no auge da energia. No final de um dia cheio de coisas que cansam. Ainda assim, esta disciplina amorosa. A de fazer com que haja sempre uma sopa. E legumes de muitas cores. Que acabam por se transformar em coisas de que eles gostam muito. Vale a pena tudo, se sim.

Receita do bolo que desaparece rapidamente. E uma mesa quotidiana.


Apeteceu-me um título longo:) O bolo de alho francês que é sempre consumido muito rapidamente. Que tem que ser preservado e servido no momento certo. Caso contrário, não chega à mesa. Partido em cubos muito delicados e quase simétricos, não fosse eu tão obcecada com a ordem:) Um bolo que tem a suavidade do sabor do alho francês, matizado com os sabores do bacon, do pimento, da cebola roxa. O meu filho adora esta combinação. E eu adoro que ele adore comer o bolo morno que introduz refeições que são para guardar.
A receita, então:
2 alhos franceses + metade de um pimento vermelho + 4 fatias de bacon partidas em cubos + 1 cebola roxa + 3 ovos + 1 chávena almoçadeira de farinha + 1 pouco de leite + sal, azeite e pimenta rosa.

Antes, começa-se pela parte terapêutica da receita: a de cortar os vegetais e o bacon. Depois, leva-se ao lume numa frigideira com azeite e um pouco de sal e pimenta. Deixa-se saltear durante uns minutos. Entretanto, basta juntar a farinha, os ovos, o leite e uma pitada de sal. Bate-se até a massa ficar fofa. Vamos buscar o que tinha sido salteado e junta-se à massa. No final, é só levar ao forno durante 20 minutos, numa forma untada e polvilhada com farinha. Fácil e rápido. De fazer. E de desaparecer.

Antipasti

Não sei que nome dar a isto que fiz hoje. Mas sei que resultou aromático e leve. E que foi uma óptima maneira de antecipar o jantar. Como foi um momento particularmente intuitivo e porque me distraí nos meus rituais de final de dia, não me lembro das quantidades, nem do tempo que esteve no forno. O que significa que terei que me redimir lá mais para a frente.
Mas lembro-me dos ingredientes. Que foram estes:
Cebola picada + bacon + pimento doce + espinafres cortados + farinha + leite + 3 ovos inteiros +sal, pimenta e azeite + queijos gruyère e conté.
Primeiro, leva-se ao lume a cebola, o bacon, o pimento e os espinafres. Deixa-se estar um pouco, depois de se temperar com sal e pimenta. Retira-se do lume e reserva-se. Entretanto, numa taça, coloca-se farinha (é nesta parte que não me lembro das quantidades), os ovos, o sal e algum leite, que se acrescenta progressivamente. Bate-se com a batedeira durante uns minutos, junta-se o refogado, os queijos, mexe-se e leva-se ao forno numa forma untada e polvilhada com farinha. Quanto ao tempo de cozedura...have no idea! Talvez meia hora.
Mas sei que ficou delicioso. E que desapareceu rapidamente. Embora continue sem saber que nome atribuir a este momento intuitivo da Mar:)

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