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Nem nunca. Nem sempre.



















Há dias ouvi isto. Nem nunca. Nem sempre. Como não estava em circunstância de registar no meu caderno pequeno, fui repetindo mentalmente. Nem nunca nem sempre nem nunca nem sempre. Um corredor silencioso. Depois escadas. Mais um corredor silencioso. E creio que aconteceu o inevitável, enquanto ia dizendo as palavras por dentro. Guardei-as. E pensei nelas. Muito. Não foram embora. Não me esqueci, depois de as escrever finalmente. Fui pensando em todos os meus sempre. Em todos os meus nunca. E a esses acrescentei os para sempre. E os nunca mais. Depois, cheguei à conclusão de que os para sempre e os nunca mais é que são perigosos. Porque obrigam. Implicam consequências. Pressupõem fazer os (im)possíveis por ou deixar cair e isso ser uma ferida que não se fecha. Clausuras. Labirintos. Paredes que inventamos como intransponíveis. As palavras não são (mesmo) matéria porosa. O sempre e o nunca podem ser transformados só em coisas boas, se assim quisermos. Basta dar voltas às palavras e colá-las a tudo o que queremos que seja sempre e a tudo o que não queremos nunca. Bem sei que a vida é que dá as voltas à séria e que troca as voltas muitas vezes. Mas querer não faz mal nenhum. O mal é sermos prisioneiros. 
Isto do sempre e do nunca presta-se mesmo a pensar a comida e as suas derivações. No meu caso, começa por isto: sempre (lá está a palavra:) pensei que não tinha paciência nem talento para fazer massas. Farinha por todo o lado. Mãos a colar. A minha impaciência a fazer caminho e uns minutos depois, dava por adquirido que aquela cena não era a minha cena. Lavava as mãos e esquecia o assunto massas para tartes e outras coisas de que as pessoas que gostam de fazer comida gostam. O imaginário associado à cozinha também está cheio de falácias. E de muitas histórias. Lá está, declinações do nunca e do sempre a funcionar. Outra irritação tinha que ver com a manteiga nas receitas de bases para tartes. Muita, quase sempre. E temperamental, a obedecer a procedimentos. Eu gosto que as coisas sejam simples e sem muitos parágrafos, porque a vida já está demasiado cheia de complicações e de parágrafos. Basta esse imponderável enorme, creio.
Por isso, quando num dia de muito calor no Verão passado, me apeteceu sem mais fazer uma tarte de cebola, com uma base que tivesse azeite em vez de manteiga, foi inevitável lembrar-me de todas as vezes em que me zanguei com este universo de farinhas e assim. Queria tentar replicar uma receita que trouxe de uma viagem a Maiorca. Ao miolo rural da ilha. Um lugar tranquilo e muito distante da contaminação perversa que estragou muito. Deram-me a provar uma tarte de cebola que, para mim, permaneceu como a memória daquele lugar. A comida pode ser/dizer a alma de um sítio. O sol doce de Maiorca. Os ocres e os verdes secos. As pedras quentes das ruas. O espírito livre e ligeiramente utópico das pessoas. Tudo isso numa fatia de tarte de cebola. E sem lastro do sabor (excessivo) a manteiga. Ficou-me na ideia. E aqui está. Depois de a fazer muitas e muitas vezes. Bem posterior ao jantar de Verão em que a servi pela primeira vez. Feliz, por ter ultrapassado as minhas questões com isto de fazer massas para tartes. Depois de se ter tornado uma das entradas preferidas do meu filho. Bem no tempo e a tempo das cebolas novas. E com imagens de agora, da Primavera na serra, a caminho da aldeia da Pena. Todos os anos renasce mais bela. E o tanto que isso diz. Sempre, a beleza mágica das montanhas que se renovam, que encontram um sentido para o tempo que passa. Tão bom que isto tudo seja aqui. Tão bom que estas cores todas estejam a acontecer aqui perto. Com aquele poder silencioso dos grandes espaços. Tal e qual como com os livros. 
Para mim, os livros são também grandes espaços. Todas as noites. Depois de todos os ruídos. Depois de todas as coisas e sítios e pessoas. Sempre o livro que estiver a ler. Para esta página, este livro. Tive a sensação de estar sempre a tentar compreender discursos e narrativas que foram concebidos para não serem compreendidos inteiramente (seja lá o que isso for). Senti um pouco do que senti quando li os simbolistas pela primeira vez, algures aos dezassete anos. Metáforas e imagens e símbolos. Uma visão satírica do imaginário dos parques de diversões e isso ser uma fuga calculada e circunscrita a uma realidade da qual não se consegue (ou não se quer) escapar. Um enorme e labiríntico parque temático, algumas vidas. Para prevenir, é melhor dizer que, se se ultrapassar o primeiro capítulo, está tudo bem e vamos conseguir chegar à última página:) Deixo este texto sobre. Gostava de deixar em português. E lamento. Mas só encontrei um texto muito breve e muito preguiçoso que não justifica a ligação. Uma coisa que justifica é o vinho que fica com esta comida que vai bem com brancos ou com tintos. E sim, fica maravilhosa com espargos grelhados. Há coisas que parecem ter nascido umas para as outras. 

Tarte de cebola, bacon e pinhões 
NB: A versão vegetariana desta tarte é igualmente deliciosa. Basta omitir o bacon. E pode ser servida quente ou fria, que vai correr bem das duas maneiras. 

Para a massa:
300g de farinha + 3 ovos inteiros + 1 gema para pincelar + 4 colheres (de sopa) de azeite + meio copo de água morna + sal q.b. 

Para o recheio:
4 cebolas (médias) + 150g de bacon + sal, azeite, vinagre de arroz e pinhões q.b. 

Numa taça, coloca-se a farinha e abre-se um espaço no meio. Aí, coloca-se os ingredientes restantes. Vai-se trabalhando com as mãos passadas por farinha. Basta uns cinco minutos, até que as mãos fiquem sem colar e até que a massa esteja maleável. Faz-se uma bola (ou um coração:), envolve-se com película aderente e deixa-se descansar durante meia hora (pelo menos). Depois, é só estender com a ajuda de um rolo da massa, forrar uma forma, picar com um garfo, pincelar as margens com gema e levar ao forno durante cinco minutos. Decorrido esse tempo, retira-se e cobre-se com a cebola e com o bacon. Basta levar uma sertã ao lume, com um fio de azeite e o bacon cortado em cubos pequenos. Deixa-se estar durante uns dois minutos, acrescenta-se a cebola, um pouco de sal e vinagre de arroz e envolve-se. Quando ficar translúcida, retira-se do lume e coloca-se por cima da massa. Vai ao forno a 180ºC, durante cerca de 15 minutos. Pouco antes de servir, pinhões levemente tostados numa sertã seca. 

A música é dos Kings of Leon. Waste a moment. 

Aniversário em dia de chuva.





























O mês da luz mais suave começa com um aniversário. No dia 1, uma amiga que está sempre, fez trinta anos. E assinalou-os com carinho. Dedicou-se a preparar um jantar para acolher. Pôs uma mesa branca. Comprou flores frescas e colocou-as numa jarra. E fez uma tarte muito leve. Que foi o que nos recebeu, mal chegámos. Isso, um sorriso atarefado e uma casa preparada para receber. Para agradecer. À Pipinha. Que faz parte deste universo condensado. Obrigada pelo jantar num dia de chuva e de vento. Obrigada pela tarte leve que me fez bem num dia que foi longo. Pela imagem cálida de uma jarra com flores frescas. Pela conversa partilhada a uma mesa branca. Coisas assim, a que se quer corresponder. Com um presente que é uma narrativa. Composta pelo imaginário de uma mulher que descreve as mulheres de uma maneira muito particular. Faz com que sejam fadas. E demónios que atormentam existências. Mulheres de gelo que determinam que as vidas que se atravessarem no seu caminho nunca mais sejam as mesmas. Uma forma possível de agradecer. Com as mulheres da Ana Teresa Pereira. E com isto. Palavras juntas a tentarem dizer a dádiva de uma vida. E uma receita para partilhar. Para que a memória de um jantar não seja só a circunstância de um dia de chuva e vento. E que fique cristalizado assim. Com uma receita dela. As flores brancas que comprou para assinalar trinta anos de vida. E a luz branca da casa branca da minha amiga.

Tarte de bacalhau dos trinta anos da Pipinha:)

400 gramas de bacalhau desfiado + 2 colheres (de sopa) de margarina + 1 cebola média (bem picada) + 3 colheres (de sopa) de farinha + meio litro de leite morno + 1 colher (de sopa) de salsa picada + sal, pimenta e noz-moscada + sumo de meio limão + 1 embalagem de massa folhada.

Refoga-se a cebola com a margarina e junta-se a farinha e o leite alternadamente. Depois de acabarem as duas coisas, junta-se o bacalhau, a salsa e os temperos (sal, pimenta e noz-moscada). Deixa-se "borbulhar" durante uns minutos, acrescenta-se o sumo de limão, rectifica-se os temperos e coloca-se na massa folhada. Vai ao forno até que fique dourada (cerca de vinte minutos). E na hora de servir, basta acrescentar duas coisas: uma salada verde e um vinho claro e fresco.  Mesmo num dia de chuva.

No jardim.






























Quando acontece não estar aqui, aquilo de que sinto mais falta é do jardim que respira lá fora. Porque não consigo encontrá-lo em parte nenhuma, quando não estou aqui. Mesmo que veja jardins mais bonitos ou mais disciplinados. Acho que o personifico. Aquilo de lhe atribuir características que são humanas. E assim, os arbustos disciplinados são o que há em mim de muito racional. As heras que estão por todo o lado acabam por ser o que é imponderável ou impulsivo. Lá fora, as árvores crescem livres. E acolhem vida todos os anos. De pássaros que são livres como as minhas árvores. No regresso, há sempre vontade disto. De uma espécie de convocatória telegráfica. "Estejam cá às oito. E um beijo:)" E então, jantar lá fora. Perto das árvores que acolhem. Das heras indisciplinadas. E dos arbustos racionais. Este domingo à noite foi assim. Copos a tilintar. Pratos circulantes. Nada de lugares marcados. Almofadas e velas. E amigos. A graça de ter amigos no meu jardim. Que recebe como se fosse gente. Ainda que esteja silencioso. A respirar. Quando já é de noite. E se ouve a vida a acontecer. A pretexto de um jantar. Muito leve. Salada de endívias, maçãs e nozes. Bolos salgados. Sopa que conforta em tigelas pequenas. E uma tarte de cebola que foi feita pela primeira vez. Para receber amigos. Depois de ter estado longe do meu jardim.

Tarte de cebola

Uma embalagem de massa quebrada + 3 cebolas médias partidas às rodelas + metade de um pimento vermelho + três tiras de bacon fumado + queijo mozzarella + sal, azeite e pimenta.

Antes de tudo o mais, abre-se a embalagem da massa, para ir respirando. Parte-se depois as cebolas, o pimento e o bacon e leva-se ao lume numa frigideira. Com azeite, sal e pimenta. Salteia-se ligeiramente até que a cebola fique translúcida. Retira-se do lume e estende-se a massa numa forma de fundo amovível. Pica-se com um garfo e coloca-se o salteado. Leva-se ao forno. Quando a massa começar a alourar, acrescenta-se o queijo mozzarella e deixa-se estar até gratinar. Serve-se quente. Acompanhada da salada de endívias e maçãs que eu me esqueci de fotografar:)

Vida real.





























Nada poético, o contexto inicial das imagens. Uma daquelas situações de vida real. Um dia longo. Cansativo. A constatação de não haver energia para compras de final de dia. E a lembrança de que havia dois pedaços de frango a pedirem reconversão. A juntar, legumes em fragmentos que pediam o mesmo. Alguns cogumelos, um alho francês, um talo de aipo e metade de um pimento. Eu tinha dito que não era nada poético, não tinha? Mas ainda deu para poesia, afinal. Ainda deu para um jantar, o contexto inicial que carecia de poesia.

Tarte rápida de fragmentos

2 pedaços de frango (não é preciso serem muito generosos) + metade de uma cebola + metade de um pimento vermelho + 1 alho francês + 1 talo de aipo + oito cogumelos frescos + meio litro de leite + farinha Maizena (uso Express) + sal, azeite e pimenta q.b. + queijo parmesão ralado + 1 embalagem de massa folhada.

Forra-se uma forma de tarte com a massa e pica-se com um garfo. Reserva-se. Faz-se o refogado com os legumes partidos e o frango desfiado. Quando estiver tudo cozinhado, junta-se o leite. Aguarda-se que aqueça e junta-se a farinha Maizena, até ficar cremoso. Tempera-se com o sal e a pimenta que entendermos. Coloca-se na forma e finaliza-se com o queijo parmesão ralado. Vai ao forno durante 20 minutos, o jantar improvável feito de fragmentos. Enquanto está no forno, podemos ir fazendo isto:

Couve roxa com nozes e pêras

Corta-se a couve em juliana. Leva-se ao lume numa frigideira com um pouco de azeite, sal e vinagre. À medida que for cozinhando, junta-se bocadinhos de água, só para hidratar. Deixa-se fazer durante uns cinco minutos, obedecendo a esta cadência. Pouco antes de retirar do lume, junta-se pedaços de nozes (picadas grosseiramente) e cubos de pêras. Se necessário, mais um bocadinho de sal e vinagre.

De vez em quando é assim. Achamos que não dá para mais. Que estamos só cansados. E que não dá mesmo. E afinal não. Ainda vamos a tempo de contrariar as probabilidades. E então, fazemos com que sejam um jantar. Com tonalidades que acrescentam poesia à que já está em nós.

Uma receita sem nome e uma mesa frugal.




Não sei bem qual o nome para isto. Parece uma espécie de pizza. Mas não é bem isso, porque a massa não é de pizza. E não é bem uma tarte, porque não tem a configuração de. Não que isso constitua um problema em si. Porque foi cumprido o requisito mais elementar nestas coisas de comida: soube bem. E nunca deixo de pensar no facto de estas pequenas delícias surgirem muitas vezes do acaso, da falta de tempo ou tão só, da necessidade urgente de qualquer coisa que reconforte. Muito fácil e rápida de fazer, esta receita breve de algo a que não sei dar nome. Antes de um almoço que pedia uma fórmula inicial. Foi esta a maneira de começar um almoço num dia de sol. E sei que havia música. E uma mesa cá fora, junto às árvores. Que era quase Primavera. Agora, enquanto se escreve a receita sem nome, já é Primavera. E chove. Daquela maneira muito franca, sem espaço para grandes hesitações. Bom assim, quando a chuva é declarativa, como as frases de que gosto muito. Sem reticências, a chuva que está lá fora. E zangada, por haver direito a trovões e tudo:)

Fica a receita sem nome, mas que me soube a uma mistura de Provença e de Toscana.

Uma embalagem de massa quebrada + 3 cebolas roxas + 1 pimento amarelo + o queijo mozzarella que quisermos + azeite, flor de sal, creme de vinagre balsâmico e orégãos.

Começamos por abrir a embalagem da massa. Depois de estendida, pincela-se com um pouco de azeite e espalha-se uma pitada de flor de sal. Entretanto, é só colocar as cebolas roxas cortadas em rodelas finas, o pimento em cubos pequenos e mais um fio de azeite, flor de sal e umas gotas de creme de vinagre balsâmico. Por cima, queijo mozzarella e orégãos.
Vai ao forno entre 15 a vinte minutos, renovando-se a camada de queijo uns minutos antes de servir. Só para ficar com um aspecto irresistível:)

E o básico a acompanhar, para uma receita igualmente básica: uma salada generosa em cores e em frescura, fruta verde em mármore branco. E uma mesa frugal para dois. A acolher uma receita sem nome. Muito frugal também, a receita sem nome.

No imediato, tarte de cebola vermelha e chèvre.

Há coisas a que aderimos de imediato. Ou coisas que surgem em nós de uma forma igualmente imediata. Sem que consigamos realizar bem porquê. Foi assim com esta tarte, concebida mentalmente a caminho de casa, na última sexta-feira. Concretizada imediatamente. E gosto que seja tão simples. Na execução e nos ingredientes. Uns escassos trinta minutos da minha vida. Traduzidos numa tarte de cebola vermelha e chèvre. Uma tarte quentinha para antes de jantar. Com vinho tinto e a música que anda sempre por aqui. Tão essencial, que achei que devia ser repetida. Desta vez, como fórmula de abertura para o jantar de domingo. Para receber um amigo pintor e uma amiga que tem o nome da menina do País das Maravilhas. E eles deram-me a alegria de terem gostado. Uma alegria transformada em migalhas num prato vazio.
Consegui uma imagem de fim de tarde, nesse domingo. Acabada de fazer, a tarte de cebola vermelha. Num pedestal branco, quase imersa em verde indisciplinado. E uma outra, de sexta-feira à noite, logo a seguir ao primeiro ensaio. Associada a um creme de abóbora muito aveludado. Partilho então uma receita muito frugal. Que nos lembra o gosto de cultivar a simplicidade. Nos gestos, nos sabores. Este é a carinho imediato e a mimos espontâneos.

1 embalagem de massa quebrada + 2/3 cebolas vermelhas + metade de um pimento laranja + queijo chèvre (o suficiente para cobrir a superfície) + sal, azeite, vinagre balsâmico e pimenta rosa + umas gotas de creme de vinagre balsâmico.

Liga-se o forno, antes de começar a preparação. Retira-se a massa quebrada da embalagem, para ir "respirando". Depois, corta-se as cebolas às rodelas relativamente finas e o pimento em cubos pequenos. Leva-se ao lume numa frigideira, com azeite, sal e um pouco de vinagre balsâmico. Salteia-se ligeiramente, durante uns três minutos. Acrescenta-se a pimenta e mais vinagre balsâmico, caso seja necessário. Entretanto, estende-se a massa numa forma com fundo amovível e pica-se com um garfo. Coloca-se a cebola salteada e depois as fatias de queijo, de forma a cobrir uniformemente a superfície da tarte. Finaliza-se com umas gotas aleatórias de creme de vinagre balsâmico. Vai ao forno durante vinte minutos.

Depois, devemos fazer tudo para que seja comida enquanto quente. Para não se perder nada do aroma do queijo e da harmonia entretanto criada com o creme de vinagre balsâmico. Basta acompanhar com uma salada fresca, de tão verde. E vinho tinto. E conversa no meio de música. Coisas que acontecem à mesa. Coisas muito simples e imediatas que surgem com uma refeição.

NB: As cebolas vermelhas encontram-se com relativa facilidade nos hipermercados. O creme de vinagre balsâmico veio do supermercado do El Corte Inglès.

Uma prova e um caminho de luzes à mesa.


Situo primeiro a parte da prova. A verdadeira possibilidade de criação surge nas circunstâncias que, à partida, não seriam terreno fértil para que se desse fosse o que fosse. Há inúmeras lições e exemplos desta ideia em variadíssimos campos. Penso nos socalcos no Douro, de repente. Onde dificilmente haveria hipótese de cultivar ou de produzir. Mas há, houve. Porque alguém se lembrou desta técnica e a aplicou. E assim, surgiu não só o vinho, mas também um património visual inesquecível. Com as devidas distâncias, evoco um cenário com que nos confrontamos muitas vezes: o que fazer com sobras de refeições? Neste caso, havia dois pedaços de frango relativamente generosos, mas que não poderiam ser, por si, uma refeição. Fui habituada pela minha mãe a não desperdiçar. Por me ter sido ensinado que há uma espécie de vertente do sagrado associada não só ao gesto de comer, mas também ao de cozinhar. Assim, aplico frequentemente este preceito tão essencial e esforço-me por não desperdiçar. E, para além de o encarar como algo que se basta enquanto ensinamento, acho também que são estas as circunstâncias em que mais ponho à prova a minha inventividade. A sós com música que inspire. E com as coisas em que penso, enquanto as minhas mãos se dedicam a transformar despojos de uma refeição em algo que não estava escrito ou previsto inicialmente. E, num final de dia, enquanto permitia que a música dos Muse se transformasse em fonte de coisas boas, surgiu uma tarte de frango com acelgas e mostarda. 
Foi assim que aconteceu:
Um refogado simples: azeite, cebola picada, pimento vermelho, uma courgette pequena e um alho francês cortados. O frango desfiado quase a seguir, sal e um pouco de vinho branco. Deixa-se refogar durante uns minutos e introduz-se as acelgas cortadas. Mais uns minutos breves ao lume e um pacote de natas. Envolve-se tudo, junta-se uma colher de sopa de mostarda, pimenta moída e mais sal, se necessário. À espera, está massa folhada, previamente picada com um garfo. Depois de se colocar o recheio sobre a massa, preenche-se a parte de cima com queijo mozzarella e emmental. A seguir, um forno quente durante 20 a 25 minutos.
E mais música e um gin tónico partilhado, enquanto se espera. Quando é tempo, serve-se quentinha com o tipo de salada que entendermos. Numa mesa onde se desenhou um caminho feito de luzes sustentadas por copos escolhidos ao acaso.

Tarte de cebola e queijo fresco

Tenho andado a revisitar um dos livros da figura que me merece mais respeito, no que concerne à comida. Cozinhar com vegetais, de Maria de Lourdes Modesto. Tão sóbria sempre. Nas descrições, nas explicações, na maneira como são formuladas as instruções para as receitas. Uma mulher que dedica a vida a acrescentar coisas ao que já foi escrito e teorizado sobre a nossa cozinha. E sobre a dos outros países, também. Tudo isto para dizer que, para mim, ela está no extremo oposto dos discursos um pouco deslumbrados e pedantes sobre aquilo que é um gesto muito essencial: cozinhar. Para além disso, as receitas dela resultam sempre. Fazem com que nos sintamos capazes de passar tempo a fazer caldos de legumes e de nos aplicarmos a filtrar composições que tornam melhores outros pratos. Nada de receitas que guardam segredos. Ou impossíveis de aplicar a uma vida quotidiana nem sempre fácil de conciliar com o gosto por fazer coisas com as nossas mãos.
Esta foi uma das receitas que isolei. E claro, serviu de inspiração. Porque sou terrivelmente insubordinada e raramente sigo as receitas sem acrescentar ou retirar coisas. Ficou muito leve, a tarte que combina cebola com queijo fresco. E foi parte essencial de um almoço de irmãs, num jardim de Inverno cheio de luz. É bom tirarmos tempo para os nossos. Para lhes lembrarmos que estamos lá. Para nos lembrarmos que eles estão lá.
A receita é esta:
1 embalagem de massa folhada + 2 cebolas médias picadas + 5 fatias de bacon picadas + 1 pacote de natas + 1 queijo fresco + queijo mozzarella + 2 gemas de ovo + azeite, sal, coentros e pimenta.

Estende-se a massa numa forma e pica-se com um garfo. Depois, é só levar ao lume as cebolas e o bacon, num pouco de azeite. Junta-se as natas, sal, pimenta e coentros. Deixa-se aquecer durante uns minutos e acrescenta-se as gemas previamente batidas num pouco de leite. Mexe-se de imediato e adiciona-se o queijo fresco, partido em pedaços pequenos. Deita-se na forma, depois de se pincelar um pouco as margens com um pouco da gema de ovo já utilizada no recheio. No fim, um pouco de queijo mozzarella, para termos um gratinado mais bonito:) Vai ao forno durante cerca de vinte minutos. E basta acompanhar com uma salada de alface e maçãs laminadas.

Um jantar de sábado à noite


Devo começar por dizer que as minhas tendências ligeiramente obsessivo-compulsivas não me permitem fazer massa para pizza muitas vezes. Isto porque o caos que se instala na cozinha, enquanto se prepara a massa, mexe comigo. E então, apesar de ser muito intuitiva a cozinhar, a verdade é que a farinha por todos os lados e as mãos peganhentas, fazem com que me apeteça desaparecer até a ordem ser restabelecida:). Mas a Joana veio cá a casa. E fez a massa, enquanto eu fazia o resto. Aqui fica então a receita da base para pizza:
4 chávenas de farinha+uma saqueta de fermento de padeiro+1 chávena de azeite+uma pitada de sal+2 chávenas de água tépida.
Coloca-se a farinha numa taça. No meio abre-se uma cavidade, coloca-se o sal, metade do azeite e da água e começa a operação de ficar com as mãos peganhentas. Vai-se amassando e junta-se água e azeite, consoante a necessidade. Quando a massa deixa de se colar insistentemente às mãos, faz-se uma bola e deixa-se em descanso durante meia hora, coberta com um guardanapo de pano. E fica em descanso mesmo. Não se deve perturbar o descanso da massa anteriormente massacrada pelas nossas mãos:)
NB: A Joana, que é vegetariana e tem algumas tendências místicas (que eu acho amorosas, apesar de ter sorrido ligeiramente com as suas recomendações), disse que a massa deve ser feita numa taça de loiça, por causa das vibrações positivas:). E que o guardanapo que cobre a massa deve ser branco.

Agora falta o resto. E o que se põe por cima da base, fica ao critério de cada um. Por mim, é o básico: tomate, cebola, pimento, azeitonas, cogumelos, orégãos e muito queijo mozzarella. Doses renovadas de queijo mozzarella. Descobrimos ontem que quando a primeira camada de queijo derrete, se deve colocar mais, para ficar naquele ponto delicioso!

A fotografia é uma homenagem à minha amiga. E também achei curiosa a ironia de simular uma oferenda ao buda de pedra:)

Tarte de cebola vermelha e acelgas


Uma tarte feita em meia hora. Ligeira. Com muitos vegetais e uns fiapos de queijo mozzarella. Uma óptima entrada, com pretensões a prato principal.


Ligar o forno e forrar uma forma de tarte com fundo amovível com massa folhada. Cortar 2 cebolas vermelhas em rodelas finas, adicionar pedacinhos de pimento verde, cenouras cortadas em rodelas finas e levar ao lume em azeite. Deixar cozinhar e juntar um pouco de tomate triturado. Finalmente, juntar as acelgas na quantidade que se entender e deixar estar mais cinco minutos. Temperar de sal e pimenta e colocar na massa folhada. Espalhar o queijo ralado por cima e levar ao forno durante 15 minutos.

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