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Um lugar onde pensar em voltar.

































Acaba aqui, o relato. Numa das mesas do Florian. Um bom lugar para terminar. A uma mesa. Onde se esteve prolongadamente. Com o olhar pousado em asas etéreas que voam indefinidamente. Um lugar com direito a suplemento musical. Com uma orquestra. E uniformes brancos que trazem bandejas com memórias de sabores. Daqueles que ficam muito em nós. Foi num final de dia que aconteceram os fragmentos que ficam hoje. Depois de muitas coisas, tempo de contemplação silenciosa. Há sempre tanto no que guardamos para nós. Nos momentos em que o olhar se demora em pormenores que de outra maneira seriam irremediavelmente perdidos. Nunca me importou a urgência de ver por ver. Ver para dizer que se viu, que se esteve lá. Uma componente febril de que não gosto. Embora perceba o subjacente. Rentabilizar o tempo disponível para se estar num lugar. Ver o máximo no menor tempo possível. Fazer o contrário um bocadinho. Passar por filas intermináveis e não querer tomar parte em nenhuma delas. Passar por uma fila em direcção a uma esplanada. E ver pessoas. E céu. E fechar os olhos. Para ver melhor. Para conservar melhor o que está a acontecer. O ruído do mundo numa esplanada. A espuma dos lugares onde estamos de passagem. As imagens que ficam são detalhes do que quero conservar na memória. Porque Veneza também foi isto. Foi a orquestra do Florian. E os uniformes brancos dos empregados. Os brilhos dos lustres lá dentro. Biscoitos de canela e chocolate e manteiga. Os rostos contemplativos nas mesas ao lado da mesa. A luz de Veneza a tomar conta de um final de dia. Antes de expirar até ao dia seguinte. E ali também houve isso. De pensar num dia seguinte. Guardei a possibilidade de um dia seguinte no Florian. Porque pensei em voltar. Voltar a Veneza. À luz que é só de Veneza. Depois de uma viagem, querer voltar. Uma espécie de enunciação de um propósito à medida das nossas possibilidades interiores: voltar. Hei-de rever-me naquela mesa. Num dia que ainda não sei. Que vive à distância simples da eventualidade de um dia seguinte.

Savor kindness because cruelty is always possible later.
































Foi o lugar onde mais gostei de estar. E não sabia que ia ser assim. Que é a parte mais bonita disso tudo. Antecipei muitas coisas. Muitos lugares. Mas não este. Não a quietude que senti no jardim da última morada da Peggy Guggenheim. O objectivo era o óbvio: ir ver a colecção. Mas não me lembro de quase nada dessa parte. Pollock. Picasso. Pouco mais. Quase uma espécie de sacrilégio, que é dizer isto. Mas sim. Porque o que ficou foi estar cá fora. Por me ter dado conta de que ela gostava tanto daquele jardim ao ponto de querer ser ali sepultada. Que gostava tanto de Veneza, que quis morrer ali. Uma inscrição sóbria. Uma pedra de mármore no chão. Terra. Uma morada eterna, a dela. Achei tão comovente. Tão intenso, este pedaço de vida. Nos jardins. Cheios de flores campestres. Nada de flores complicadas e sofisticadas. Muito de campo. Tive pena de não lhes saber o nome. Um banco de jardim com uma advertência. Para gozarmos a bondade. Porque a crueldade é sempre possível. Mais tarde. Que seja sempre para mais tarde, isso da crueldade. Um pavilhão de jardim que é um misto de café com restaurante. Muito ligeiro. Cheio de luz. Virado para as flores e para as árvores. Um lugar onde comer tartes de morangos selvagens. Perto, uma oliveira feita de desejos. Uma árvore com papéis suspensos. Cheia de desejos, a árvore. Cheia de pessoas, no fundo. Daquilo que elas escolheram deixar de si naquelas folhas de papel.
Esqueci-me dos nomes dos quadros todos. Os nomes dos pintores são difíceis de enunciar. Três, quatro. Pouco mais. Só consegui isto. Ter estado sentada junto ao túmulo dela. Perto da árvore dos desejos. Um bocadinho precioso de silêncio. Com morangos doces e tudo o mais. Queria muito não me esquecer. Por causa daquilo da crueldade ser sempre possível mais tarde. Quando houver, esta memória há-de ser um dos meus refúgios. Sei que sim.

Danieli.



































Não interessavam as imagens todas dos filmes. Cenas trabalhadas. Construídas. Coisas que nos fazem sonhar. E que valem por isso. Para nos darem mais elementos que permitem o sonho. Havia uma coisa lá de trás. De há dezasseis anos atrás. Porque foi aí que soube que havia um lugar em Veneza que se chamava Danieli. Foi aí que começou a construção de uma narrativa interior que me levou lá. Às escadas de mármore. Irregulares. Pelas vezes sem conta que foram/são percorridas. Aos lustres com cristais coloridos de Murano. Ao jogo labiríntico de claustros interiores que nos faz pensar que estamos num lugar sem possibilidade de atribuição de idade. E ao último andar. O lugar que faz com que Veneza seja irremediável na memória. Sem que isso seja uma coisa de postal. Ou de filme. Ou de narrativas que nos são exteriores.
E então, não dá para esquecer nada. Não dá para reduzir o que ali foi vivido a uma enumeração de pormenores. O acolhimento. A comida. O cenário exterior de mármores e cristais e veludos pesados. O que fica. O que fica é o silêncio que parecia uma miragem. Pela agitação toda que se respirava fora de portas. Sono silencioso e imperturbável. Páginas do livro que há-de ser sempre Veneza. Lidas em silêncio. Uma pausa nocturna na varanda. E a voz numa das salas próximas. Ao piano. Um fragmento. Every breath you take. A voz que é um respirar sussurrado. Ali. Bem a meio de uma noite silenciosa. Música que também há-de ser sempre Veneza no Danieli. Como o livro. Como o silêncio nocturno. Como o jantar lá em cima. A olhar a cidade transformada em pontos de luz. Como os pequenos-almoços demorados. De lá de cima, só há céu. E uma perspectiva do mundo que não se esquece. Água incessantemente cortada pela vida incessante de Veneza. As coisas que os homens ergueram. E a sensação de que nada daquilo era suposto. Que aquela cidade, aquele chão é uma espécie de desafio que os homens fizeram aos deuses das religiões que quisermos. Nada era suposto. Mas sim. Muito. Muito belo. E inesquecível.

Veneza. Sereníssima.















































Significa muitas coisas, o gesto primordial de ir. A começar pelo facto de nos expormos ao imponderável. Por mais que até antecipemos. Por mais imagens prévias que haja. Por mais relatos e impressões que se oiça. Por mais referências literárias que preparem o caminho. Vamos e pronto. Com o que somos. Com o que esperamos vir a viver. Sempre com isso. Com expectativa de mais vida algures. Não para escapar da que fica em suspenso nos lugares que deixamos. Não por nos ser insuportável. Tanto, que queiramos escapar-lhe. Uma divergência profunda em relação ao escape, à fuga. É para gostar mais do quotidiano. É por gostar tanto do quotidiano.
Veneza está em mim. Quero muito que esteja aqui. Em fragmentos mais ou menos aleatórios. Mas meus. Daquelas coisas que fazem com que o olhar se demore. Para que fiquem aqui. No lugar onde partilho o que não passou despercebido. Tudo o que fica integrado. Irremediavelmente integrado. Uma parede onde ficou registado um amor que se quis para sempre. Cartazes rasgados. Um jardim privado num lugar onde achamos que a beleza é sem restricções. Frutos e legumes que apeteceu transformar em coisas que perduram na memória. Um homem a guardar uma escultura. Horas ao sol, para vigiar uma escultura. Despojos que não encontram lugar. Céu. Água. E eu. A acontecer no meio disso tudo. No meio de muitas pessoas. Fui mais um dos passos, ali. As coisas nunca mais voltam a ser as mesmas. Pisei aquelas pedras. Olhei a água. Senti o vento. Queria muito adivinhar o vento de Veneza. O scirocco da "Morte em Veneza". O vento quente que vem de África. Acho que não. Que não aconteceu o vento da palavra que acho linda. Terei de voltar, então. Por causa do vento. Para ir em busca do vento que é uma palavra linda de pronunciar. Scirocco. Quase tão bela como sereníssima.
E sim. Serenidade. Apesar do ruído persistente. Das pessoas a seguirem outras pessoas. Dos flashes das máquinas. Das vozes que pediam olhares. Serenidade. Passos ponderados. Mas que quiseram perder-se. Em vielas onde se podia ouvir o silêncio que havia dentro. Sereníssima, então. Como a cidade que foi uma morada transitória.

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