Um lugar qualquer.




















Vivemos cheios de perguntas. De perguntas para as quais não conseguimos respostas, a maior parte do tempo. Por vezes, são tantas as perguntas sem resposta, que se transformam numa espécie de ruído surdo, difuso. Como em (quase) tudo, importa perceber. E, uma coisa muito importante: perceber que nem sempre dá para perceber. E que, face a algumas perguntas, o melhor que se pode fazer é mesmo isso: não querer perceber. Uma coisa que só vem com o tempo e com umas quantas experiências, creio. Porque a nossa tendência natural é para esclarecer, dizer, ouvir, circunstanciar. O mais que se puder, por se pensar que é esse o caminho da paz, por mais difícil que às vezes possa ser. E não. Com o tempo, vamos aprendendo que nem sempre esse é o caminho da paz. E, que, por vezes, o melhor é não querer entender coisa nenhuma que não tenha uma explicação que não seja só água, de límpida. Porque esse é um caminho que não vai levar a sítio nenhum. Um caminho que nos desvia de outros caminhos. Mas, para chegar a este ponto, é mesmo preciso passar por umas quantas coisas. Não há uma maneira fácil. Não vem nos livros, não há filosofia que ensine. Por mais que as filosofias e que os livros sejam salvíficos, tem de ser da maneira difícil. Tem de ser pela vida. É pela vida que se chega a esse ponto de identificarmos o que é que não é para perceber. Que algumas perguntas têm mesmo de ficar sem resposta, sem que isso signifique abdicar da capacidade de ler o mundo, de registar. Tem de se passar pelas muitas declinações do inconcebível. A parte boa é que, sobrevivendo ao inconcebível, há algo em nós que é invencível. Haja vida em nós, esse dado invencível. Com alguma sorte, conservamos alguma inocência, Com alguma sorte, aprendemos a ganhar distância. Com alguma sorte, transformamos numa fortaleza serena a possibilidade permanente de nos (des)iludirmos. Haja as perguntas que houver, que haja sempre um lugar que seja seguro. Um lugar qualquer onde chegamos, respiramos fundo, dizemos baixinho deixa lá e, sem que saibamos como, está tudo bem tal como está, nesse lugar que para nós for seguro. 
Para mim, esse lugar é um sítio qualquer onde possa fazer comida. E nem sequer precisa de ser o lugar onde isso acontece habitualmente. Já fiz acontecer comida deliciosa nuns quantos sítios bem improváveis:) Basta que haja matéria-prima, um lume que se possa acender, o perfume de umas ervas e está. Um lugar seguro acontece e não há pergunta sem resposta que perturbe. Os únicos sons que importarão serão os sons das coisas a acontecer. O cortar das ervas. O estalar dos dentes de alho. O frigir do azeite numa sertã. A efervescência natural dos temperos. E o silêncio, depois. Aquele silêncio, quando tudo fica pronto, no lugar certo que foi inventado naquele momento irrepetível que já aconteceu, que já deixou de ser. Mas o maravilhoso de ter acontecido, o maravilhoso de poder acontecer indefinidamente, em variações que não podemos (nem queremos) antecipar. Reduto imperturbável que nos pertence por inteiro. Tomar como ponto de partida uns temperos e umas quantas coisas inconcebíveis e uns minutos depois, o que se põe em cima da mesa é comida deliciosa. isso. Sem triunfalismos. Sem promessas vãs. Sem palavras que afinal não querem dizer nada.
isso e sempre o encanto das coisas ínfimas. Uma toalha branca e a maneira como as coisas parecem (ainda) mais bonitas, numa toalha branca. O limonete apaziguador, dos chás das noites mais frias. Um sofá e as páginas inspiradoras desta revista, mais a alegria por ver esta casa nessas páginas. Estava escrito que assim seria. E o livro novo do Padre Tolentino Mendonça. Sem fazer perguntas. Sem esperar respostas. Lê-lo é o bastante. É o que interessa. Tudo o mais é ruído. 

Costeletinhas de borrego com esmagada de batata 

12 costeletinhas de borrego + 2 copos de vinho branco + 6 dentes de alho + 2 colheres (de chá) de pimentão doce + sal, azeite, tomilho, salsa e alecrim q.b. 

Primeiro, sal e vinho na carne. Deixa-se estar umas horas, idealmente. Cerca de uma hora antes, pica-se as ervas para um almofariz, junta-se os alhos picados com um pouco da casca, o pimentão doce e um fio de azeite. Esmaga-se bem e junta-se depois à carne, tendo o cuidado de fazer com que todas as costeletas tenham esta mistura deliciosa. Deixa-se estar. Enquanto isso, vai-se fazendo a esmagada de batatas. Assim: coze-se umas oito batatas médias em água com sal. Quando estiverem cozidas, transferem-se para um coador e passam-se por água fria. Entretanto, numa caçarola, um fio de azeite e uns quatro dentes de alho esmagados. Uns segundos depois, as batatas, mais azeite, um pouco de sal e de vinagre e uns pós de pimentão doce. Envolve-se bem e esmaga-se grosseiramente com a colher de pau ou com um esmagador de batatas. É importante que fiquem alguns pedaços de batata, que isso sabe bem. Reserva-se. 
Pouco antes de servir, é que se deve fazer as costeletinhas. E é bem simples: azeite numa sertã e cerca três minutos de cada lado da carne. A marinada deve manter-se bem reservada, enquanto se faz a carne. Mal se retirem as costeletas da sertã, a marinada ao lume. Deixa-se acontecer a magia durante cerca de um minuto e transfere-se para uma tigela que vá à mesa ou para uma molheira, se formos muito escrupulosos nesses códigos:) O resto é só uma alegria que vale bem a pena viver. E sim, um vinho tinto que nos saiba bem. Esta comida pede isso. 

A música é esta. Toxic em versão veludo. 

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