Fragmentos. Coisas pequenas que surgem com os dias. Coisas que podem ser feitas. Com as mãos. Ou que podem ser vividas. Coisas que nos acrescentam. A música, um livro, um sítio, uma refeição. Que depois de incorporadas são memórias. As coisas que gostámos de viver.

terça-feira, 15 de Abril de 2014

Alegria:)





Um daqueles inícios de refeição que fica na memória como se tivesse sido o principal. A primeira vez que fiz esta salada foi numa daquelas reuniões familiares agitadas, em casa dos meus pais. Recordo-me que o pretexto foi aproveitar ovos cozidos em abundância. E a seguir, aquilo que me acontece sempre, que é imaginar mais sabores associados. Coentros, tomates e azeitonas pareceu-me bem. E com um tempero franco, a fazer com que as coisas se harmonizassem como se tivessem sido feitas umas para as outras. Seja como for, quando foi servida, acalmou um bocadinho a confusão habitual da minha família que parece italiana:) Estavam todos demasiado ocupados a desfrutar da primeira parte da refeição, acho. 
Perfeita para quando muita gente se senta à mesma mesa, como acontece nestes dias que se aproximam. Fácil e rápida de fazer. E alegria garantida, na sequência:) 

Salada fresca de ovos 

2 tomates (médios) + metade de uma cebola vermelha (picada) + 3 ovos cozidos + um punhado de azeitonas + coentros, azeite, flor de sal e vinagre de sidra q.b. 

Primeiro, coze-se os ovos (durante dez minutos), descasca-se (depois de uns minutos em água bem fria) e reserva-se. Pica-se muito bem a cebola e coloca-se no fundo de uma taça. Depois, descasca-se os tomates, corta-se em pedaços pequenos e coloca-se por cima da cebola. A seguir, os coentros picados e a primeira parte do tempero: flor de sal e um fio de azeite. Depois, as azeitonas (descaroçadas e partidas em pedaços) e os ovos cozidos (picados grosseiramente). Por último, mais um fio de azeite e vinagre de sidra. Antes de servir, envolve-se tudo, para tomar o gosto do tempero. Quando for à mesa, deve estar bem fresca, que é para saber (ainda) melhor. 

E The Cure. Porque há música a que voltamos uma e outra vez. 


domingo, 13 de Abril de 2014

Mais e mais sol.







Por esta altura, a vida é mais exterior. Mesmo que haja vida interior e tudo. Mas com sol, cá fora é tão melhor. Por enquanto, almoços e lanches. Mas assim que houver aquela temperatura no ponto, pequenos-almoços e jantares também. O jardim pede mesmo para ser respirado, depois de um Inverno tão longo. 
Para esta mesa, a força simbólica das heras. Gosto muito deste verde aleatório, que se vai agarrando onde pode. É assim como nós. Penso que somos como as heras. Agarramo-nos ao que podemos. Como podemos. E são resilientes. Por isso, se na próxima reencarnação for uma planta, gostava de ser uma hera bem verde e bem resistente:) 
No que diz respeito a isto das mesas, é um elemento que se basta. Não parece precisar de mais nada. Só o que é necessário. E claro, que a comida seja servida. Com aquela alegria por estar sol. Neste dia, a abertura coube a uma salada fresca de ovos. Tenho recebido (muitos) ovos de presente. Como toda a gente sabe que gosto muito de fazer comida, tenho direito a mimos que me fazem bem feliz. Saquinhos de ovos pendurados na porta de casa, entregues quando estou a entrar no carro. Para a menina. A sério que estou para ver quando é que chego à parte de ser senhora:) 

E esta música. Que diz assim: everything I love is on the table. E as metáforas que quisermos, para isto. 

sexta-feira, 11 de Abril de 2014

Na Avenida da Liberdade.






No post anterior disse que tinha tido um dia péssimo. Pois esse tal dia que era para esquecer, terminou aqui. Numa cama de um dos quartos deste hotel na Avenida da Liberdade. Andava para ficar lá há algum tempo. Tinha lido sobre. Tinha gostado das imagens e do imaginário associado. Parecia-me do género de querer conhecer. Aconteceu assim, desta última vez em Lisboa. E ainda bem que sim. 
Despertou-me coisas meio ambíguas. A entrada é muito sofisticada e quase sensual, de voluptuosa. Mas o restaurante parece uma enorme sala de jantar onde um grupo de amigos se reúne, num espírito descontraído e despretensioso. Com sofás e lareira e um pátio interior com laranjeiras e com vasos aleatórios de ervas aromáticas. Propício a noites mais românticas, no caso de circunstâncias abençoadas pelo Registo Civil e/ou pelas religiões que apetecer. Ou só carnais, ilícitas, sem nada a sentir, no caso dos outros casos não abençoados que devem começar e terminar ali. 
E gostei do contraste matinal de estar a tomar o meu pequeno-almoço sempre frugal e de olhar para o lado e ver um casal muito jovem, com um bebé amoroso. Na mesa em frente, um casal apaixonado de uma maneira muito hetero e um outro de uma maneira muito homo. Quando me levantei para ir buscar um jornal do dia, um casal de meia-idade a sentar-se. Ainda felizes. Dá para perceber essas coisas:)
Gostei muito do silêncio. Gostei muito de acordar e do improvável de ouvir pássaros nas laranjeiras do pátio interior do hotel. Gostei muito do espaço, no quarto onde acabei o meu dia. Das janelas muito altas. Dos espelhos nos sítios certos. Gostei muito de poder dormir, de exausta, depois de um dia muito complicado. 
Hei-de voltar. Enquanto não, fica esta referência já vivida. Talvez possa dar jeito a alguém. Para o fim-de-semana prestes a acontecer. Para quando for. E Primal Scream. Por gostar sempre:)


terça-feira, 8 de Abril de 2014

Ainda Lisboa.








Vou explicar: estava a ser um dia horrível. De certeza que toda a gente já passou pelo mesmo. Um daqueles dias em que parece que tudo conspira para que a vida nos corra bem mal. E claro, chuva. Chuva o tempo todo. Uma viagem sem um bocadinho de céu livre de água. E uma entrada em Lisboa a roçar o suplício, de demorada. Por isso, a minha ideia de ir conhecer um restaurante novo nessa noite foi remetida para uma altura em que o cenário não fosse tão desastroso. Diz-me a experiência que fazer experiências nestas circunstâncias pode ser só o culminar de uma sequência de más opções. Quando estou nesses impasses, sei que devo ir a um lugar seguro, certo, onde as coisas corram bem e pronto:) No meio do trânsito parado, um telefonema rápido e estava resolvida a questão de tudo poder ser pior e ter um mau jantar. 
Há muito que andava para transformar este sítio numa destas páginas. Mas acontecia sempre qualquer coisa. Fotografias péssimas, máquina esquecida num quarto de hotel, almoços entre coisas a acontecer e falta de tempo. Mas este lugar é tão de confiar, que tinha mesmo de existir aqui. Comida honesta, matéria-prima óptima, a simpatia e eficiência de quem trabalha ali. Não é sítio para nos deslumbrarmos com a estética. É assim de nos concentrarmos no mais importante: comer bem. Nunca saí dali insatisfeita ou a achar que devia ter ido a outro sítio. E há anos que acontece assim. Tanto, que acabou por salvar um dia bem complicado. Eu sabia que este lugar não iria desiludir-me:) À saída, reparei que não havia chuva e que uma das luzes da rua parecia uma lua bem bonita. E estava tudo bem. Pensei mesmo assim. Está tudo bem. 
Fica mais uma ideia (boa de viver) em Lisboa, que a Páscoa traz consigo promessa de uns dias em que interrompemos umas coisas para dar lugar a outras. Seja o que for, que seja bom. E esta música. Boa de ouvir num dia mau em que parece que tudo está nos lugares errados. 


domingo, 6 de Abril de 2014

Mais um código postal.








Estive há uns dias em Lisboa. Coisas de trabalho. Mas, mesmo nessas circunstâncias, as noites e as horas de refeição são nossas e de mais ninguém:) 
Este lugar não estava nos meus planos. Ia a caminho deste sítio, para um lanche tardio, depois de um dia particularmente exigente e olhei para o lado. Ainda bem que sim, porque alterei a rota inicial sem hesitar. Limonada fresca, um hamburguer bem clássico, uns chips de casca de batata deliciosos e um brownie. A sério que entendi este lanche como uma espécie de recompensa, depois de tantas horas produtivas (e cansativas:). 
Fica mais um código postal em Lisboa. O To Burger or not to Burger. Muito bom. Ambiente descontraído, pessoas muito simpáticas, aquela luz a entrar pelas janelas a dar para a rua e comida que me soube mesmo bem. Deixo este texto, que explica muito bem por que é que pretendo voltar. E a música que estava nos meus ouvidos, a caminho deste lugar no Chiado. 


quinta-feira, 3 de Abril de 2014

Branco analógico.







Uma toalha branca é uma espécie de símbolo. Nos imaginários comuns, espera-nos sempre uma mesa branca. Sem vincos. Completamente lisa. Guardanapos também brancos. Dobrados com muito cuidado e colocados no lado esquerdo do prato. Ao branco inicial regressa-se sempre. Mesmo que se goste muito de cores, como no meu caso. A questão é que até posso cansar-me momentaneamente de um turquesa, de um motivo exuberante ou étnico. Mas nunca de uma toalha branca. Olho e parece-me sempre bem. Assim como acontece com os básicos, nas coisas de vestir, numa analogia adaptada. 
Creio que já falei algumas vezes da minha poesia pragmática. Também se aplica a isto das toalhas brancas e da vontade de não querer ter grandes maçadas a tirar nódoas e coisas do género. Acho que devemos poupar-nos, para podermos gozar bem a nossa vida:) Por isso é que os meus guardanapos e toalhas brancos são das linhas concebidas para hotelaria. Algodão irrepreensível, preparado para lavagens diárias a temperaturas elevadas, resistente. Basta imaginar o número de vezes que serão lavadas as toalhas brancas dos nossos restaurantes preferidos, para perceber a dimensão do pragmatismo da minha poesia que não está para se chatear:) Costumo comprar aqui. Um dos meus lugares em Lisboa e que um dia será uma destas páginas. 
A propósito da mesa branca, uma daquelas comidas que cruza universos de uma maneira muito feliz. 

PS: Para eliminar os vincos por completo, ponho a toalha na mesa e passo-a a ferro outra vez. Impecável e imaculada, como devem ser as toalhas brancas:) 

Frango Teriyaki com aipo e cenoura 

4 peitos de frango do campo + 1 cebola + 3 dentes de alho + 2 talos de aipo + 2 cenouras (médias) + sumo de 1 limão + metade de 1 pimento amarelo + metade de 1 malagueta vermelha + 1 copo de vinho branco + 1 copo de molho Teriyaki + sal, azeite, coentros e pimenta preta q.b.

Parte-se os pedaços de frango em pedaços e coloca-se no tacho onde vão ser cozinhados. Tempera-se com sal e sumo de limão e envolve-se logo. Depois, junta-se a cebola, os alhos e a malagueta picados. A seguir, o aipo cortado e a cenoura em palitos, o pimento em cubos e coentros picados. Envolve-se uma vez mais. Por fim, o copo de vinho branco, metade do copo do molho Teriyaki, um fio generoso de azeite e pimenta preta moída na hora. Se houver tempo, deixa-se repousar neste tempero durante uns quinze minutos. Se não houver tempo, está bem na mesma:) 
Vai ao lume durante meia hora, mexendo-se de vez em quando. No último minuto, acrescenta-se a outra metade do copo de molho Teriyaki e mais coentros picados. Mexe-se mais uma vez e serve-se sem que apure mais. Este úlimo detalhe é importante, porque da primeira vez que fiz isto, o sabor ficou demasiado intenso e quase não se sentia outra coisa que não o molho Teriyaki. 

E a música que fez com que aos 14 anos fosse procurar mais música dos Massive Attack. Sabia que iria gostar sempre. E estava certa:) 


terça-feira, 1 de Abril de 2014

Mais um capítulo.




Esta amiga convidou-me para ir almoçar a casa dela. Pois eu achei que estava mesmo a precisar era que alguém cozinhasse especialmente para ela. E então, disse-lhe para vir cá. Precisava de descansar e de comida com muitas proteínas, para retemperar forças:). Um almoço e uma mesa podem fazer milagres que nenhuma religião ensina. 
Com a minha alegria meio distraída, não consegui um registo aceitável da mesa nem nada. A ver se me redimo, da próxima vez. Só se salvou esta primeira imagem. Com a particularidade boa de ser do lugar que ela ocupou. E duas coisas que lhe fizeram bem: creme de cenoura e aipo e o tal reforço de proteínas: vitela assada. Três horas e meia de fogo brando, até termos uma carne delicada e impregnada de temperos quase mágicos. Hoje, fica a receita de um creme bem especial, que motiva sempre aquela formulação boa, depois de um silêncio inicial: o que é que tem?:) 

Creme de cenoura e aipo para uma amiga 
Ingredientes para 8 pessoas

2 cebolas + 2 talos de aipo + 1 courgette (média) + 2 batatas (médias) + 8 cenouras + água, azeite e sal q.b.  

Primeiro, descasca-se e corta-se todos os legumes. Depois, faz-se um refogado leve com as cebolas e os talos de aipo, cortados grosseiramente. Mexe-se, para envolver bem no azeite e acrescenta-se a courgette, as batatas e as cenouras. Mais um fio de azeite e mexe-se mais uma vez, antes de se acrescentar água até cobrir os legumes. Tempera-se de sal e deixa-se cozer durante 35 minutos. Decorrido este tempo, reduz-se ao creme mais aveludado que conseguirmos. Rectifica-se de sal e de azeite (se necessário) e está pronta para fazer bem a alguém:)  

E um bocadinho da banda sonora de mais este capítulo. O som lírico e meio metálico dos London Grammar.