Enquanto os dias.
















Enquanto os dias passam, sempre comida honesta, franca e deliciosamente simples. O inesquecível está ao alcance. Não é preciso ir buscá-lo longe, nem marcar dia no calendário, enquanto se transforma a vida que se está a viver numa expectativa abstracta e arrastada, com a ideia suspensa no que está para vir. Por motivos que não interessam para aqui, tenho uma noção da finitude que faz com que sinta que cada dia é um acontecimento maravilhoso. Não é uma interpretação forçada de um carpe diem no abismo, não é uma noção forjada em teorias new age que têm muitas questões a resolver com uma coisa chamada realidade. Não é uma abstracção nem uma coisa discursiva. Não ando sempre a sentir-me nas nuvens, nem acredito em estados contínuos de alegria/energia/esperança/coragem/o que for. Isso não existe. Porque de vez em quando, é difícil como tudo. E por isso é que é tão maravilhoso encontrar-se sentido ainda assim. Salvar cada um dos dias. É disso que se trata. De uma espécie de operação de salvamento quotidiana. Nunca adormecer com a sensação de que o dia esteve à deriva, sem que tivéssemos uma palavra a dizer. E há sempre palavras a acrescentar. Sempre. Muitas variáveis não dependem de nós. Muitos imponderáveis, muitos planos que podem ou não ser levados por um vento mais ou menos tempestuoso ou por um Inverno mais ou menos rigoroso. Mas há tanto que depende só de nós. Tanto.
No meu caso, seja o que for que aconteça fora, sei que ao final do dia, a imagem de dois copos de vinho juntos, a partilhar e a dizer tudo o que acontece, é certa e constante. A cadenciar aquela espera boa, enquanto os temperos vão compondo uma harmonia muito particular. E os objectos e as histórias que são/que contam. Uma jarra vinda do sul de Itália e que imaginei assim mesmo, mal a vi: com coisas verdes, perto do lugar onde faço a comida de todos os dias. Um bule muito anterior a mim e aos meus gestos aqui. Também com coisas verdes. E o Inverno a acontecer lá fora. Chuva nenhuma me demove ou impede de assistir a cada gradação de verde no jardim. Os musgos nas pedras. Os limões acabados de ser retirados da árvore e o cheiro fresco que deixam nas minhas mãos. Vê-los juntos no cesto e pensar em limonada em pleno Inverno, no lastro cítrico que vão deixar na comida. Faz bem só por si. de olhar. de sentir. Cada ritual pequeno e silencioso. Polir as pratas e pensar que as minhas mãos e aquele tempo as puseram mais bonitas e que isso vale muito, apesar de ser uma coisa insignificante. É um momento que dá uma luz nova e concreta no que se pode ver, tocar. Mas, mais importante do que isso, a luz invisível que faz um caminho interior, sempre que nos dedicamos a fazer coisas destas, que libertam o pensamento e que nos fazem concentrar em algo muito simples: começar e terminar uma tarefa. Como se tomássemos conta de nós e da nossa luz. Não sei bem. Ou como se emendássemos o mundo numa partícula infinitesimal. Outra coisa boa que ajuda a ter uma alegria de criança: os rebuçados Heller. Infalíveis:) Bem perto de uma revista linda, a fazer o pleno, no que diz respeito a revistas masculinas. Ofereci-a ao meu homem, que sabia que ele iria gostar e deixo-a aqui. É esta e os ingleses publicam coisas como ninguém. Creio que nunca falei aqui desta dimensão, mas acho apaixonantes os códigos tácitos no universo masculino. Particularmente nos sapatos. Aqueles não-ditos, mas que acabam por ser (muito) reveladores. Saber que sapatos em tons claros de castanho são uma espécie de desastre e que dizem tanto sem que uma única palavra soe. Ou cada uma das maneiras de dobrar o pocket square e todas as mensagens silenciosas. Ou o número certo de botões num blazer. Ou as cores das gravatas e cada um dos subentendidos. Toda uma metafísica:) Nesta edição, um capítulo bem escrito e bem fotografado, dedicado a uma rua muito especial, a Savile Row.
E os livros. Desta vez, três livros breves, daqueles que começamos e terminamos numa noite, assim possamos e queiramos. Este livro de histórias da Virginia Woolf, com um título que eu adoro. Este livro sobre Veneza. Alguns escritores dizem os sítios como ninguém. Este é um desses escritores. E este pequeno livro do Padre Tolentino Mendonça, que é do género de trazer guardado na carteira, porque é o tipo de texto a que se regressa uma e outra vez. A Igreja Católica precisava de mais gente como o Padre Tolentino Mendonça. Deixo também este texto sobre uma sessão muito especial, que aconteceu na semana passada e que juntou três religiões e dois humoristas corrosivos.
Esta comida que fica hoje reitera o meu gosto por receitas que transformam ingredientes simples e humildes em comida inesquecível, que depois nos é pedida vezes sem conta. É assim que acontece aqui e há muito que a devia ter partilhado. É este o tempo. Bem no auge de um Inverno chuvoso, que pede comida assim.

Entrecosto em molho (denso e delicioso:) de vinho tinto

2 peças de entrecosto (com alguma gordura, mas não em demasia, que estraga o molho) + 1 cabeça de alhos (cortada ao meio, sem fragmentar) + 1 garrafa de vinho tinto + 5 colheres (de sopa) de molho inglês + 5 colheres (de sopa) de molho de soja + 2 colheres (de sopa) deste molho mágico e que encontro aqui + metade de uma malagueta vermelha + sumo de uma laranja + sal, azeite e pimenta preta q.b.

No talho, pede-se para cortar as peças de carne ao meio e depois com intervalos de dois ossos. Em casa, tempera-se, usando todos os ingredientes da sequência e deixa-se tomar o gosto pelo menos durante 5 horas. Vale a pena a espera:) Depois, sela-se cada uma das peças, numa sertã larga, com um fio de azeite, passando-as dos dois lados durante uns trinta segundos. Depois de selar as peças de carne, transferem-se para a panela onde vão ser cozinhadas, tendo o cuidado de regar com os sucos deliciosos que ficaram na sertã. Depois, é deixar tudo acontecer durante duas horas. No forno ou ao lume. Normalmente, divido o tempo: a primeira hora no forno, a segunda hora ao lume.
Decorrido este tempo, retira-se as peças para uma taça e trata-se do molho. Prova-se, acrescenta-se água, sal ou azeite, se necessário. No final, um pouco de Maizena Express, para que o molho fique bem aveludado. Filtra-se para cima da carne, usando um coador largo e tendo o cuidado de esmagar bem as metades da cabeça de alhos, para que o molho fique ainda mais delicioso. Serve-se logo, que as coisas boas não devem ser deixadas à espera:)

A música é de uma banda que vou gostar muito de ouvir daqui a uns meses, neste festival que me é tão especial. 

3 comentários:

  1. Querida Mar,

    li o teu post na semana passada, mas não consegui comentar. Foi uma semana muito difícil, com muito trabalho e muitos aborrecimentos na escola. E o Paulo não estava cá. Os dois copos de vinho no fim do dia fizeram-me muita falta.
    Gostei tanto deste post. Do "carpe diem" consciente, que não vai em modas parvas. Das imagens, das verduras em jarras e em bules... E muito, muito da comida. É do género de comida de que os meus homens gostam. E fiquei curiosa em relação ao molho castanho. Tenho de o procurar nas minhas lojas de cá. Ou trazer uns fresquinhos na próxima ida ao continente.

    Um beijo grande. Dias bons para vocês.

    llídia

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. *frasquinhos, não "fresquinhos" ;)

      Eliminar
    2. Eu envio-te. Da próxima vez, trago para ti:) Depois ligo-te. Que bom que gostaste. E sim, esta comida. Muito. Entrecosto fica bem na versão clássica grelhada, mas assim desta maneira, é sublime. A carne solta-se e aquele molho denso. Passo a vida a fazer disto, porque passam a vida a pedir-me para fazer:)

      Dias bons para vocês! Espero que tudo o que te cansou/aborreceu tenha passado.

      Um beijinho*

      Mar

      Eliminar

AddThis