Dia sim dia não.














De todas as sequências que acontecem aqui, a mais frequente é esta. Gesto dia sim dia não. E não é só por aquelas coisas de ser saudável. Não é só por isso. Dá-me sempre tranquilidade, uma sopa. No gesto óbvio e imediato, quando me sento à mesa. Mas antes disso. A tranquilidade começa no momento em que, a meio do dia, penso que independentemente do que venha a ser o jantar, a base está lá. Feita, serena. O resto acontecerá por si. 
Fazer uma sopa tem toda aquela herança. Com todas as diferenças e com todos os climas, é universal e intemporal. Vem logo na sequência do leite maternal. O alimento por onde todos começamos, antes das outras descobertas, antes das outras sequências. E é como se nunca estivéssemos verdadeiramente sós. Como se puséssemos em stand by todos os discursos que nos dizem que a nossa solidão é irredutível. Fazer uma sopa trata também disso. 
Gosto de juntar os legumes todos, primeiro. Se os ingredientes são lindos, os legumes conseguem sempre ser ainda mais. A nossa vida é feita de alegrias pequeninas. A minha é. Muito feita desses encantos transitórios que se transformam em coisas mais ou menos tangíveis. Depois, é seguir o princípio das camadas e dos momentos. E esperar um bocadinho, até que tudo se transforme num creme aveludado. Num prato, numa tigela. Ou numa chávena, quando apetece um conforto imediato, a meio de trabalho solitário e silencioso. Basta uma chávena deste creme, um fio de azeite com orégãos e uma fatia de pão. Basta isso. 
Com um alimento primeiro, a poesia de quem não gostava de ser falado, nem de falar com nem para. Nem de luzes nem de prémios. Livre. Era livre. E são tão poucos os que podem dizer de si que são livres. O Herberto Helder morreu na semana passada. Continuar a lê-lo silenciosamente. É isso. Continuar a lê-lo silenciosamente. 

Creme de cenoura com coisas

2 cebolas + 1 batata doce + 1 batata + 2 courgettes + 1 chuchu + 1 pedaço de abobrinha + 8 cenouras (médias) + água, azeite, sal e pimenta preta q.b. 

Primeiro, a parte linda de juntar os legumes e de descascar e cortar. Depois, ir colocando tudo numa panela, numa gradação vibrante. Numa panela e não num tacho, que é para a parte de passar com a varinha mágica não se transformar numa tarefa ineficaz. Um pouco de sal, um fio de azeite e leva-se um bocadinho ao lume, para um refogado leve, dando duas ou três voltas com uma colher de pau. Acrescenta-se água até cobrir os legumes, deixa-se ferver e reduz-se o lume. Fica assim durante meia hora. Depois, é só transformar tudo num creme aveludado, sem deixar grumos. Se necessário, acrescenta-se água, para ficar com a consistência que merece. Rectifica-se os temperos (mais sal e mais azeite) e serve-se bem quente. Eu acho que fica sempre especial com um fio de azeite e com um pouco de pimenta preta. 

E mais música. Perto da poesia das horas silenciosas e de roupa de dançar. Mesmo antes de dançar esta e outras músicas. Muito carinho, pela palavra que uma amiga me ofereceu numa t-shirt e que eu não consegui fotografar inteira. Mas está aqui. É o que interessa. 


15 comentários:

  1. Também sou fã de sopas, principalmente estas do tipo creme de qualquer coisa, são as minhas favoritas embora uma boa sopa à lavrador também não me deixe indiferente. E de cenouras, adoro as de base de cenouras. No fim ralo um pouco de gengibre para misturar e parece que estmos noutra realidade :)

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    1. Olá Maria,

      Muito do género de sopas/cremes. Em todas as estações. Só não sou assim muito de sopas frias. Tudo o mais, sim:) A base é quase sempre de cenoura. Infalível, no sabor, na textura. Vou experimentar essa ideia do gengibre no fim. A ver se acerto na quantidade, que o gengibre carece sempre desse cuidado. Obrigada por esse contributo. E pelo comentário.

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  2. Olá Mar:

    Não tenho conseguido inserir aqui nenhum comentário... tentei várias vezes. A ver se hoje resulta.
    Para lhe dizer que já fiz o frango com molho de mostarda, e que ficou delicioso! Da próxima vez vou servi-lo a amigos próximos, daqueles com quem apetece partilhar uma 'comidinha' aconchegante. E que o Augusto da Foz é um dos meus locais de romaria regular desde há muito tempo. Os pães de leite, biscoitos e quadrados de laranja ou chocolate do Augusto estiveram presentes em muitas festas de anos lá de casa... Foi no Augusto que aprendi muito sobre queijos, ainda antes da fartura e variedade que hoje temos nos hipermercados.... e queijo é para mim (quase) tudo... mais do que o vinho, confesso...
    Costumo fazer muitas vezes creme de cenoura e abóbora com uma pitada de caril. Fica uma sopa deliciosa, principalmente em dias frios... O essencial: uma sopa, um fio de azeite, um bom pão, a palavra de um poeta.
    Também tenho (re)lido Herberto esta semana. Nunca foi preciso que ele se mostrasse. Esteve e está em todos os versos...
    Boa Páscoa,
    Marta

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    1. Olá Marta,

      O blogger tem as suas manias. Ainda ontem estava a ver que não conseguia deixar aqui este creme. E gosto muito de saber que o frango com mostarda correu bem, aí. Mesmo muito. Agradeço ter deixado essa boa notícia.
      Gosto muito desse lugar no Porto. A mercearia é como deviam ser todas as mercearias. E é bem difícil escolher as coisas. A broa de Avintes que trago de lá é deliciosa. Nunca mais comprei noutro sítio que não no Augusto da Foz. E sim, os pães de leite. O meu filho adora-os. Da próxima vez, faço um post inteirinho só para a mercearia. Tenho é de não me concentrar tanto nas minhas compras, para guardar imagens. Na garrafeira é mais fácil, que é o meu marido que está à procura do que queremos.
      Vou juntar caril a um dos meus cremes. Deve ficar mesmo bem, associado a cenoura e a abóbora.
      E sim. Está. Um poeta destes não morre, mesmo que a vida o mate. A questão é que há vidas que estão para lá desse limite.

      Uma boa Páscoa para si também.

      Mar

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  3. Olá, Mar.

    Cá em casa também há sempre sopa. E só saber que ela está lá dá segurança, por tudo o que evoca.
    Também tenho andado a reler Herberto Helder. Não tenho os dois últimos, mas ando com Poesia Toda por perto. Numa altura em que tanta gente sem talento quer ser famosa, este homem recusou prémios e fez tudo para que ninguém falasse dele, o que o torna ainda maior. Livre, como dizes.

    Um beijo,

    Ilídia

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    1. Olá Ilídia,

      Essencial, a sopa. Nem de propósito, hoje senti essa tranquilidade. Tinha um compromisso para o final da tarde e só cheguei a casa no limite. Mas havia este dado sereno. Por isso, o resto pôde acontecer com muita calma:)
      Liberdade desta não é para toda a gente. Poesia desta também não. Os poetas maiores foram/são sempre assim. Indomáveis. Anda sempre por aqui, a poesia dele.

      Um beijo.

      Mar

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  4. Fall your Dreams. ...allways!!!
    My sweet Mar <3

    Beijinhos atolambados

    Mary

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    1. Linda Mary:)

      Percebi. Tomei conta. Lembras-me sempre muitas coisas importantes. Daquela tua maneira rara. Obrigada outra vez.

      Um beijo grande!

      Mar

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  5. Bom dia, Mar.
    Cá em casa, o ritmo também é esse. Dia sim dia não , é dia de colocar a panela no fogão, escolher os legumes (nunca fiz com batata doce, mas vou experimentar), arranjá-los e deixar o calor do lume e o tempo fazerem o resto. Começamos os nossos almoços e jantares, sempre, com uma sopa. Agora, só a Mar para descrever tão bem, o poder mágico destes dois momentos, fazer um sopa e depois saboreá-la.
    Continuação de uma boa semana.
    Bjs
    Ana

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    1. Boa noite, Ana

      Ritmo de casa, esse. Um ritmo com cadência boa de ritual. Tempo e lume. Duas coisas cheias de sentido. Com essa magia de que falou. Agradeço sempre o carinho das suas palavras. É como chegar a casa e comer uma sopa quentinha:) Obrigada por isso, Ana.
      E experimente com batata doce, sim. Nos cremes, dá um traço bem especial. Aqui e fora de casa, as minhas refeições têm sempre este dado. Em casa, pelo óbvio. E fora, são um óptimo barómetro. Costumo dizer que percebo logo se um restaurante vale a pena ou não pela sopa. Os pratos mais humildes, as coisas mais essenciais são o que apuram melhor a nossa percepção, os nossos sentidos.

      Uma boa semana para si também.

      Mar

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  6. Bom dia, Mar.
    Cá em casa, o ritmo também é esse. Dia sim dia não , é dia de colocar a panela no fogão, escolher os legumes (nunca fiz com batata doce, mas vou experimentar), arranjá-los e deixar o calor do lume e o tempo fazerem o resto. Começamos os nossos almoços e jantares, sempre, com uma sopa. Agora, só a Mar para descrever tão bem, o poder mágico destes dois momentos, fazer um sopa e depois saboreá-la.
    Continuação de uma boa semana.
    Bjs
    Ana

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  7. As tuas sopas ;) É sempre um início saboroso. Prepara o resto e aconchega. Tal como a poesia. Também aconchega no seu poder silencioso...
    Babette

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    1. Sou muito do género:) Um início saboroso, que gosto de aproveitar lentamente. Sou sempre a última a terminar as refeições.
      Quanto à poesia, eu gosto é da que me apaixona, da que me estilhaça. Ontem estive a reler um poema soberbo de Charles Bukowski e é tudo menos aconchegante. Mas como eu gosto de o ler. E ao Herberto Helder. Gente desta não morre nunca, mesmo que os corpos apodreçam ou sejam incinerados.

      Mar

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  8. Maravilhosa esta "sopa" ... obrigada pelo momento <3

    http://cxdepapelao.tumblr.com/

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    1. Obrigada a ti, pelo momento bom de ler:)

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