Nuvem nº 17 e outras coisas.






















Somos seres orientados pela luz do sol. Medimos o pulso à vida de acordo com as estações. Sentimos as coisas de uma maneira porque as folhas caem ou porque estão vibrantes de verde. O mesmo fluir vezes sem conta. Até podemos ser do género de dizer que tudo isso nos é indiferente. Que é tudo igual em nós, mesmo que à volta tudo esteja sempre a reformular-se e a renovar-se indefinidamente. Mas isso é só conversa. Ou então é uma coisa pior e estamos a ver isto tudo a passar-nos à frente dos olhos. E a vida contemporânea, com todos os seus frenesins e anestesias, engana muito. 
O momento. E tudo o que se perde da vida, quando deixamos passar aquele momento que ficará como irrecuperável. Vou começar pelas nuvens, que aí, aquilo do momento é mesmo para valer. Aqueles segundos de carmim, numa nuvem sozinha, num céu em dia de sol. Estive para não guardar esta nuvem junto das minhas outras nuvens. Entre muitos outros hábitos ou rituais que fazem com que (algumas) pessoas me tomem por ingénua ou por cabeça nas nuvens, tenho uma colecção de nuvens. Fotografo-as, dou-lhes um número, guardo-as com a data e gosto de as olhar e de me lembrar do momento em que cada uma delas aconteceu na minha vida. E sim, lembro-me sempre. A nuvem da imagem é a minha nuvem nº17 e ainda bem que suspendi o que estava a fazer, para a guardar. Mais uns segundos e não. Dissipou-se num instante e é tão bonita e tão cheia do dia de Março em que a guardei. Lembro-me bem desse dia, mas ainda mais do momento lindo em que a vi. É assim. Tal como a imagem da criança a correr e a rir-se como só as crianças, na Costa Nova que me é tanto e onde sinto que é tão bom que aquele mar faça parte da minha vida. Levantou-se aquele vento que é tão dali e que muita gente não entende, o menino começou a rir-se e depois a correr e esta magia breve aconteceu. Ou as mimosas. Sinais luminosos da minha vontade em recuperar de uma broncopneumonia, por ser muito importante sair de casa e ver se ainda conseguia ir a tempo do tempo efémero das mimosas. Consegui isso. Isto. Um ramo pequenino, num jarro de água, numa mesa branca. Só para o ano é que volta a haver mimosas. E, para todos os efeitos, não dá para ter a certeza de que para o ano, no tempo das mimosas, estarei por cá. Faço por não me esquecer disso, que é um dado paradoxal que faz com que queira viver ainda mais, ainda melhor. No que me é dado a escolher, só recuso viver aquilo que sei que vai magoar-me na certa. Dantes, não me importava muito. Agora sim. O tempo e a vida vão-nos ensinando umas quantas coisas e fazem com que percebamos que não vale tudo e que o coração é um órgão muito importante, que não é só veias e artérias e cenas. O medo, a perda de ingenuidade, a recusa, nem sempre têm um efeito paralisante. Podem ser sinal de preservação, podem ser uma afirmação de que, lá está: não vale tudo. 
E. como uma promessa cumprida, a Primavera. Todas as cores efémeras deste tempo doce que nos quer levar pela mão, como se a vida fosse mesmo um passeio pelo parque. Os almoços prolongados dos dias de sol. Mesmo linda, a maneira como cada bocadinho de luz cai nas coisas, especialmente nas coisas na mesa ali fora. Curioso como as coisas mais simples nunca cansam os sentidos. A loiça branca. Irregular. Elementar. Um creme suave de cenoura e gengibre a ser o início feliz de um dos almoços lá fora. Pedaços de broa tostados com azeite e com as ervas frescas que apetecer no momento. Ler esta revista lá fora e isso significar só o gesto de deixar cair duas almofadas numa das pedras e ficar ali sem querer estar noutro lugar que não aquele. Tudo o mais que nos faz bem, sem estar a pensar no como e no porquê. Porque sim, dizem as coisas simples da vida às pessoas complicadas. 
Com a noite, os livros e as luzes médias dentro de casa. Nesta página cheia de sol, o livro da minha querida Sofia. As nossas vidas, com tudo o que têm de incompreensível e de imprevisível, coincidem com outras vidas. Graças a um imponderável qualquer, eu e a Sofia coincidimos. E, para não me afastar do coração, basta só dizer que fico tão feliz que ela exista. Faz-me ter ainda mais fé nas pessoas, esta (minha) pessoa linda. É isso. Entre muitas outras palavras que vamos partilhando e que estão guardadas. Há muito que queria ver aqui o livro dela. A altura certa é esta. Com a luz de que gostamos as duas. 
Para este tempo, deixo a receita de uma sobremesa que pode bem ser a sobremesa mais simples de todas. Faz-se assim. E é fácil como um dia de sol. 

Ananás assado com xarope de ácer e tomilho fresco
NB: Nos dias de calor, esta sobremesa é maravilhosa servida fresca. Nos dias de frio, deve servir-se morna. São alegrias diferentes em tempos diferentes, mas a matriz é a mesma. 

1 ananás + 4/5 colheres (de sopa) de xarope de ácer (uso sempre este e encontro-o aqui) + hastes de tomilho fresco.

Corta-se o ananás em pedaços grosseiros, mas mais ou menos do mesmo tamanho e espessura, para que asse por igual. Coloca-se os pedaços num prato largo de ir ao forno, rega-se com o xarope de ácer e leva-se ao forno a 200º C, durante 25 minutos, reduzindo a temperatura para os 180º C aos 15 minutos. Terminado este tempo, retira-se do forno e deixa-se arrefecer. Pouco antes de servir, o tomilho fresco, cortado com as mãos, em cima do prato onde for servido, que assim não se perde nada daquele aroma. 

A música é dos Incubus. Cheia de mensagens interiores nas palavras, mas ligeira e fácil no som. Especialmente a partir do momento em que o tempo está no 1.25'. Aquela coisa da expectativa, de esperar por coisas boas, condensada nesses segundos. Com todos os se e mas e apesar de


Sem comentários:

Enviar um comentário

AddThis