Obrigada, Julho. Por tudo.























Se a vida fosse uma auto-estrada e todos conduzíssemos carros com mudanças automáticas e com GPS, isto até que seria fácil. Eu acho que a vida é mais como uma estrada de montanha, numa analogia roadster. E tudo bem, até porque quem gosta de conduzir, sabe que é assim que se sente melhor o caminho: numa estrada de montanha, sem mudanças automáticas e sem coordenadas dos satélites que parecem monitorizar os nossos caminhos, lá do alto infinito. Aceitamos cada bifurcação como exercício de escolha, sabemos que nuns momentos não vai custar nada, que o caminho se fará por si e que em outros momentos vai ser bem difícil. Tanto, que duvidaremos se valerá a pena fazer a tal estrada. Serão muitas as circunstâncias em que pensaremos que a auto-estrada era bem mais fácil, se teremos tomado a melhor decisão. Nessa estrada, teremos de parar para descansar e muitas vezes sem saber se estaremos a deter-nos no melhor sítio. Hesitaremos outra vez, muito provavelmente. Faz parte de escolher caminhos pouco percorridos. Convém aceitar como fazendo parte e ir seguindo. A parte melhor do caminho não é chegar. É o caminho em si. Não preciso de muitos mais anos de vida para integrar isto. Está aqui. E sou grata por tudo o que fez com que chegasse tão cedo a esta conclusão. Todas as coisas gratas e todas as que são para deixar ir. Dizem que só lá no final, no final do caminho todo. A mim, aconteceu-me um bocadinho antes.
O meu Julho foi como são as estradas de montanha. E, olhando para trás, agora que o bebi até à última gota, agradeço cada dia. Mesmo os dias íngremes, em que olhava lá para baixo, para o abismo. Mas mantive-me na minha estrada, a seguir caminho. É tempo de agradecer, quando as coisas chegam ao fim. Agradeço o caminho de sexta-feira até ao mar da Costa Nova e o sonho íntimo que é cada grão daquela areia. E as cebolas novas, doces como maçãs, que transformo numa salada que é este mês servido num prato generoso e salpicado pelo rosa das beterrabas. Julho é tempo de colheita. Fala-se muito no Outono, mas Julho também é tempo de ir buscar à terra a esperança que se semeou meses antes. Julho é o sabor das vagens de feijão verde, das cebolas e das cenouras e das batatas. Julho não seria o mesmo sem a salada russa que me faz ser criança outra vez, pela mão da minha mãe, a escolher o feijão verde com cuidado e com as minhas mãos pequenas. Como em todos os meses, os ovos que me aparecem aqui. Sacos pendurados na porta sem que eu saiba de quem vieram ou cestos e abraços carinhosos que sei de cor. Sei que gostas, que ficas feliz. Sim. Muito. Tanto como fiquei num dia de trabalho, com um bolo-coração vermelho a dizer Parabéns, Mar. O meu dia de aniversário já não era aquele, mas as minhas pessoas de todos os dias não se importaram e acharam que eu devia ter um bolo da forma do coração que tenho tatuado na pele, que a minha vida devia ser celebrada, mesmo que fora do dia. Obrigada por isso. Muito. E pelas framboesas que a doce Célia, a pessoa que me ajuda em casa, me deixou de presente. E pela tranquilidade da minha gata, a Salomé. Dizem que os gatos fazem bem às pessoas, que ficam com as coisas más e tristes e que as catalizam. Um ponto de vista um bocadinho místico, mas em que gosto de pensar. E pelo pão de todos os dias. E por mais um vinho maravilhoso. Pela luz dos finais de tarde. Pelo pedaço de estrada por onde gosto tanto de passar, mesmo que seja uma coisa de todos os dias. Pela arte da Margarida Fleming. Pelas cerejas que ainda houve. Pela ligeireza das minhas roupas das festas de Julho. E por tudo. 
Este Julho foi também tempo de voltar a um livro que tinha deixado em suspenso. De vez em quando acontece-me. Entre os livros que ainda me faltam e os livros que deixei interrompidos, tanto para ler. Este livro estava na página onde o deixei há cinco anos. Olhava-o sempre como algo inacabado, amputado. Não era esse o tempo de o ler. Foi este. Tão bom, o Somerset Maugham. A vida como o pó que é. Nós e cada uma das nossas conquistas. Nós e cada uma das nossas derrotas. Nós e cada uma das nossas angústias e exaltações. Tudo pó. Tudo sem sentido. Guardei passagens em papéis breves, sublinhei, parei e voltei atrás, li alto para ouvir mesmo como é que um livro pode mudar-nos a vida. E Julho passou. Julho foi até ontem. E foi lindo. Obrigada, doce Julho.

A receita é uma limonada que se faz como um mojito ou como uma caipirinha. Macerada e fresca e Verão de beber. Foi inspirada na que bebi nesta livraria em Madrid. Pedi para que a fizessem à minha frente, para a fazer no regresso a casa. Fica aqui então, tal como a aprendi.

Limonada deliciosa como só no Verão

6 limões + 2 limas + folhas de hortelã + água e açúcar e gelo a gosto

Primeiro, o sumo de quatro limões. A seguir, verte-se o sumo para a jarra onde se vai servir, dois limões e duas limas cortados em pedaços grosseiros, com o açúcar que for da nossa vontade, esmagados com uma colher de pau. Deixa-se macerar uns minutos e acrescenta-se a água, a hortelã e cubos de gelo. 

A música é esta, com um vídeo lindo, que é só uma estrada a ser feita e por isso é que pertence a este post. 


17 comentários:

  1. Que lindo, como sempre! Feliz mês de Agosto!

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    1. Obrigada, Ana. Um mês lindo! Muito feliz.

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  2. Que lindo, Mar! Lindas as imagens (adoro a primeira em contraluz), lindo o teu texto, lindo esse amor. Esse amor que recebes das tuas pessoas. Em pequenas coisas, em pequenos gestos... gestos que são amor, fruto também, do amor que dás.

    És muito especial, desejo que sejas feliz. Muito. Sempre. E concordo, o mais importante é o caminho. É a estrada que percorremos. Que a tua seja bonita. Muitos Parabéns atrasados ;) Temos quase a mesma idade. Os meus 36 chegam em Dezembro.

    A música é linda, assim como o vídeo.

    Um Agosto, leve, fresco, bonito, para ti.

    Um beijinho grande, doce Mar.

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    1. Que bom que gostaste. E assim dessa maneira. Sempre carinhosa, tu. Obrigada. Pelas tuas palavras. Por ti. Pelos ventos bons que deixas pelo caminho. Pelos parabéns atrasados. Somos as duas de 80, então:)

      Pensa-se muito/demasiado nas coisas más, nas pessoas más, nos momentos maus. É bom é darmos relevo a tudo o que é bom. Isso, por si só, coloca tudo o mais no devido lugar. Um lugar assim pequenino, que o mal não deve ocupar grande espaço. Tenho a sorte de ter pessoas maravilhosas à minha volta. Muitas delas, pessoas com quem trabalho todos os dias. E isso faz uma diferença enorme. Fez sempre diferença.

      Um Agosto lindo, minha querida. E um beijo grande.

      Mar

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    2. Sim, somos as duas de 80 :) Como se costuma dizer, foi uma boa colheita :P ;) Eu sou uma sagitariana, nasci a 4 de Dezembro.

      Sim, é verdade. Devemos dar valor a tudo o que é bom. Às pequenas coisas, que são tão importantes. Acredito que faça toda a diferença, ter pessoas boas à nossa volta. E ainda bem que as tens, querida Mar :)

      Obrigada, para ti também. Outro beijinho grande.

      Cláudia

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    3. 80 é um bom ano, mas achava piada a ter nascido em 1979 por causa do "1979" dos Smashing Pumpkins:)

      Gente boa faz sempre diferença. Das pessoas más, foge-se, que é o melhor que se pode fazer.

      Um beijo para ti. Boas férias:)

      Mar

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  3. Muitos Parabéns, Mar.

    Continua a ser bela e feliz.

    Mom

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    1. Obrigada a ti. Ser/estar feliz. Muito disso. Para ti também, Mom.

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  4. Já agora, parabéns Mar. Até parece que a conheço.. E gosto.
    É tão bom procurar e encontrar coisas novas. Alma renovada.
    Helena Mendes

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    1. Obrigada, querida Helena. E sim, almas renovadas. Uma parte do descanso sereno de que todos precisamos tem muito que ver com essa renovação.

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  5. Minha doce Mar (esia)... chegar aqui é um descanso... toda tu és poesia, luz e grandeza. Adoro-te como se fizesses parte da minha vida e, o estranho, é que fazes mesmo, como fazem os livros que vamos lendo ao longo desse caminho que falas. Todos ficam a fazer parte de nós, como tu, com a tua escrita e os cheiros do amor que transformas em receitas maravilhosas! obrigada por estares aí e vê se não me abandonas e se me continuas a alimentar os dias com a palavras tuas! mil beijos de parabéns e de que bebas também este agosto até ao fim!

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    1. Fui ganhando um certo receio de me ligar às pessoas, linda Vanessa. Especialmente nestes últimos anos. É que eu gosto muito de gostar e custa mais, quando as coisas não correm bem. É o lado B das pessoas como eu. Seja como for, também penso como um dia escreveste lá no teu sítio: que seríamos (mesmo) grandes amigas:)

      Obrigada pelos mil beijos de parabéns e pelas coisas tão bonitas que sempre deixas aqui. Muita alegria na tua vida e todas as cores que tu amas tanto. Adorei regressar ao Sudoeste, lá no teu sítio:) Obrigada também por isso.

      Um fim-de-semana maravilhoso. E um beijo enorme.

      Mar

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  6. Mais um lindo post - como o mês de Julho. Parabéns pelo seu aniversário e um ano excelente!
    Julho é o mês mais luminoso. Também é o meu mês :-)
    Um beijinho e um grande abraço,


    Ana

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    1. Parabéns a si também, então. Sim, muito luminoso, o nosso mês de Julho. Obrigada, querida Ana.

      Um beijo e um abraço para si também. Muito grandes. E alegria pela sua vida.

      Mar

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  7. Bom dia, Mar.
    Tanto tempo sem vir a este sítio que me faz tão bem. Chego e encontro um texto e umas imagens que me encheram a alma. Também eu estou agradecida pelo mês de Julho e por todos os dias que me são dados viver com qualidade. Agradeço ainda ter tido a oportunidade de ter conhecido este cantinho, onde venho buscar receitas para a cozinha e para a vida.
    Parabéns pelos seus dons. Bem haja por os partilhar.
    Um feliz mês de Agosto.
    Bjs
    Ana

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  8. Bom dia, Mar.
    Tanto tempo sem vir a este sítio que me faz tão bem. Chego e encontro um texto e umas imagens que me encheram a alma. Também eu estou agradecida pelo mês de Julho e por todos os dias que me são dados viver com qualidade. Agradeço ainda ter tido a oportunidade de ter conhecido este cantinho, onde venho buscar receitas para a cozinha e para a vida.
    Parabéns pelos seus dons. Bem haja por os partilhar.
    Um feliz mês de Agosto.
    Bjs
    Ana

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    1. Obrigada pelas palavras, Ana. Fico feliz por saber que está bem, grata pelos dias todos.
      Mais disso para si. Muito disso de dias maravilhosos.

      Um beijo.

      Mar

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