Dá vontade de dizer bem devagar. Sílaba por sílaba. Tal como acontece com esta mousse particularmente voluptuosa. Como se ser de chocolate não fosse suficiente. Sempre aquele silêncio, a partir do momento em que é servida. Como se a palavra fosse repetida mentalmente. Assim devagar.
Densa, com a consistência certa, pouco doce. E tão elementar, que vai permitindo todas as variações que vão bem com a tal palavra que dá vontade de dizer devagar.
Creio que já deu para perceber que o meu registo não é de andar a inventar muito. Nem em ingredientes com nomes estranhos que carecem de descodificação prévia, nem em procedimentos. Gosto mesmo que seja assim. Antes de tudo, porque a vida normal não lida bem com aquilo a que chamo de cozinha-sacerdócio. Que é aquele registo das pessoas que se dedicam inteiramente a isto de fazer comida. Não é o meu, que a minha vida, à semelhança da de tantas e tantas mulheres normais, tem muitas declinações, muitas latitudes, muitas coordenadas. Por isso, se há uma maneira de fazer com que uma mousse de chocolate inesquecível fique pronta a ser servida em meia hora, a minha reacção imediata é a de pensar que ainda bem que sim.
Por isso, ainda bem que a mulher voluptuosa que é a Nigella Lawson chegou a esta conclusão deliciosa. Eu adaptei um bocadinho os termos iniciais e vou introduzindo os elementos que as estações e as disposições ditarem. Neste caso, cognac e raspas de laranjas. Para um nível diferente, pode ser servida com uma colher de uma compota de laranja, feita de acordo com a matriz inglesa e que será uma destas páginas assim que a fizer pela terceira vez.
Costumo dizer que ter receitas certas e básicas é como acertarmos nas peças elementares que nos vestem. São as peças que resistem bem ao tempo e ao frenesim das estações. Aquele vestido que fica bem em todas as circunstâncias. A carteira que tanto fica bem com uma t-shirt branca e uns jeans rasgados como com roupa formal. As receitas também podem ser assim. Como se abríssemos um armário e soubéssemos exactamente o que vai vestir-nos. Os receituários individuais e as analogias todas.
Mousse de chocolate com cognac e laranja
200 g de chocolate (70% de cacau) + 50 g de chocolate de leite + 150 g de marshmallows + 1 colher (de sopa) de manteiga + 100 ml de água (previamente aquecida) + 3 colheres (de sopa) de cognac + raspa de duas laranjas + 1 pacote de natas
Leva-se ao lume uma caçarola com os chocolates partidos em pedaços, a manteiga, os marshmallows e a água. Deixa-se derreter, mexendo com uma colher de pau, de maneira a harmonizar bem todos os ingredientes. Assim que estiver com uma consistência cremosa, acrescenta-se o cognac e deixa-se estar ao lume durante uns dois minutos. Retira-se e junta-se as raspas das laranjas. Mistura-se bem. Entretanto, bate-se o pacote de natas e junta-se o creme de chocolate, envolvendo tudo até estar só cor de chocolate. Vai ao frio. Daí a meia hora estará pronta a servir.
A música tem aquela cadência. Como se fosse um ritmo silábico do género de dizer devagar.























































