Quase.




















Está a aproximar-se. Sabemo-lo à medida dos dias. Das coisas que vão fazendo parte dos dias. Aquela noite que aproxima as pessoas está a aproximar-se. Tenho pensado nela, enquanto faço a comida de todos os dias. Porque todos os dias deste mês parecem querer ir dar àquela noite. Um dos sentidos do Advento. É um caminho, esse advento. Como qualquer caminho, é sempre bom fazê-lo a pensar. A dar densidade aos passos. Mais um dia. Depois mais outro. A sabedoria que não finda. A sabedoria dos dias que se sucedem. Haja o que houver. Com todas as promessas. Com todos os sins. Com todos os nãos. 
A pensar nessa noite, coisas dessa noite. Num bolo. Figos cristalizados. Licor. Laranja em calda. Coisas assim. Que fazem pensar na noite que aproxima as pessoas. Ou que lhes recorda as ausências. As distâncias. Os abismos. Em qualquer dos casos, uma fatia de bolo estará sempre certa. Fará sempre bem. E dançar no Inverno. Dançar no Inverno também faz bem. E nas outras estações todas também.

Bolo com figos cristalizados e laranja

4 ovos + 1 iogurte natural + 4 copos de iogurte de farinha + 4 copos de iogurte de açúcar + 2 copos de iogurte de óleo + 2 copos de iogurte de licor de figos + raspa e sumo de 1 laranja +  10 figos cristalizados + um punhado de passas.

Numa taça, bate-se os ovos inteiros com o iogurte, a farinha, o açúcar, o óleo, um copo de licor, a raspa de laranja e as passas (partidas em pedaços muito pequenos). Leva-se ao forno durante uma hora, a 170ºc. 
Entretanto, faz-se a calda. Assim: sumo de uma laranja com um copo de licor de figos e pedaços da casca de metade de uma laranja. Leva-se ao lume durante dez minutos. Retira-se e coloca-se por cima os figos cristalizados, previamente abertos ao meio. Deixa-se macerar. Quando o bolo estiver pronto, cobre-se com os figos e com a calda. 

Deixa lá.















Todos temos momentos destes, não? De deixar ir. De deixar cair. Dizemos interiormente: deixa lá. Costumava pensar que era uma expressão só passiva. Qualquer coisa de resignação que me afastava. Temos a mania de agir sobre tudo e mais alguma coisa. De compreender não sei o quê, atendendo a circunstâncias e contextos. Entender. Perceber. Acolher. Integrar. Perdoar. São exercícios muito inteiros. Muito necessários. Um mundo sem estes verbos seria só sem luz. Por isso é que sermos capazes de conjugar estes verbos é tão importante. Porque todos perdemos, quando um de nós diz que não quer esta conjugação. Que não quer uma vida com este bocadinho de gramática. 
Mas tenho percebido que também é muito importante saber quando chega aquele momento "deixa lá". Pode ser um "deixa lá" imediato. Do género de nos atingir. Ou então, pode ser um "deixa lá" macerado. Que já fez um caminho longo dentro de nós. Em qualquer dos casos, o meu recurso mais precioso é este. Está aqui. Muitos desses momentos "deixa lá" encontraram neste lugar uma morada. Sinais de que esses momentos não foram só lugares interiores de resignação a todas as coisas que são como são. Sinais luminosos. De uma vontade de querer muito transformar coisas menos boas em coisas que sejam só boas. E que fiquem. Ou que andem por aí, essas coisas.

Bolo salgado de iogurte (com acelgas e bacon) 

1 iogurte natural + 5 ovos + 5 copos de iogurte de farinha + 1 copo de iogurte de óleo + 1 copo de iogurte de leite + 8 folhas de acelgas + 6 fatias de bacon (cortadas em cubos) + 1 cebola média (picada) + metade de 1 pimento amarelo (cortado em cubos) + sal, pimenta preta e queijo Parmesão ralado. 

Primeiro, coze-se as folhas de acelgas em água com sal (só são colocadas na água depois de começar a fervura e deixa-se estar uns 3 minutos). Retira-se, escorre-se e reserva-se. Entretanto, leva-se ao lume a cebola, o pimento e o bacon, num pouco de azeite. Deixa-se cozinhar durante cerca de dez minutos. Retira-se do lume e reserva-se. Depois, mistura-se todos os outros ingredientes e bate-se muito bem. Acrescenta-se as acelgas e os outros ingredientes (a cebola, o bacon e o pimento). Bate-se mais um bocadinho. Rectifica-se de sal, se necessário e leva-se ao forno a 170º c durante uns 40 minutos. 

NB: Este bolo fica muito bom servido no dia em que se faz, mas é ainda melhor no dia seguinte, ligeiramente tostado no forno.

Com um dos momentos "deixa lá", uma música que tem uma cadência quase infantil, doce. Banda sonora para momentos de deixar e pronto. Ou para os momentos que quisermos:)


Abraço.












Num destes dias, apeteceu-me mesmo que ela não vivesse longe. Que pudesse ser uma coisa de telefonar e dizer para vir almoçar. Sem logísticas, sem marcações antecipadas. Ser assim de momento. Como não vive perto, uma maneira de estar à mesa foi assim. Dois presentes dentro de frascos. Feitos por ela. Chutney. Delicioso, exótico. Perfeito para inícios de refeição. Lascas de Parmesão ou queijo da Ilha. Fatias finas de presunto. Azeitonas temperadas daquela maneira muito mediterrânica. Uma salada com folhas verdes, maçãs e bagos de romã. E depois. Depois, uma comida muito daqui. Comida maternal. Quente. A comida pode ser um abraço. Entre muitas coisas, pode ser também um abraço. E uma mesa. Uma mesa também pode abraçar. Esta foi posta a pensar na possibilidade de poder abraçar uma amiga. A Babette. Da Festa de Babette. Um dos muitos lugares afectivos onde é bom demorarmo-nos.
Arroz de feijão com salpicão e coentros
1 cebola (média) + 2 dentes de alho + 2 tomates (sem a casca) + metade de 1 pimento vermelho + 1 salpicão (caseiro, de preferência) + 1 chávena de feijão-manteiga + 1 tigela de arroz carolino + 1 litro de água + sal, azeite e coentros q.b.
Num tacho, faz-se o refogado com o azeite, a cebola, os dentes de alho picados, o tomate cortado em pedaços e o pimento. Deixa-se durante uns dez minutos e acrescenta-se a água. Tapa-se e deixa-se ferver. Assim que se der início à fervura, adiciona-se o arroz e o feijão, tempera-se de sal e deixa-se cozer. Se houver necessidade, acrescenta-se um pouco de água. Quase na hora de retirar do lume, acrescenta-se o salpicão cortado em pedaços e os coentros. É importante que seja no final, para que o salpicão não coza e "feche" os sabores. Serve-se de imediato numa daquelas terrinas que "aconchegam" a comida:)

O que o Natal nos segreda.












Tem os mesmos Natais que eu. Trinta e três Natais. Há-de viver todos os anos outra vez, o bonsai que tem a minha idade e que morreu incompreensivelmente há uns dois anos. De cada vez que for Natal, encher-se-á de uma vida feita de muita luz. Este ano, é habitado por pássaros, por maçãs muito pequenas e muito vermelhas. E por palavras retiradas de um livro que me fez/faz um bem enorme. "O Hipopótamo de Deus" de José Tolentino Mendonça. Quando o li, numa viagem de comboio, tive a sensação de que aquelas palavras deviam habitar-me. Que deviam andar em mim onde quer que estivesse. Uma maneira possível. Esta. Na minha árvore de Natal deste ano. Para que fiquem ainda mais, as palavras
Já são feitos de luz, os dias. Aquilo que há-de encantar-me sempre, no Natal. As luzes. É assim, desde que me entendo como pessoa. Trilhos. Rastos brilhantes. Como se as estrelas não estivessem tão longe, no fundo. Ao contrário, aqui bem perto. Nas nossas árvores. Reflexos de luz nos lugares para onde olhamos. No chão que pisamos. Luzes no lugar habitado por uma felicidade enorme. Fazer comida e olhar para umas estrelas. E isso ser mais Natal. Segredado ao ouvido. O Natal diz-nos assim, que há uma infância (sempre) por viver. 

Com o segredo que é cada Natal, ballet. Nos céus de Nova Iorque.  


O melhor dos dias assim.
















Um bolo que fica. Imagino-o facilmente na mesa de Natal. Festivo. Com as maçãs a serem uma espécie de coroa. Motiva daquelas reacções que primeiro são só silenciosas. Depois, não. Declarativas. Creio que tem dentro o melhor do Outono. Tem dentro o melhor destes dias. Assim frios. Assim na transição entre uma coisa e outra. Com a receita, a referência de um livro. Gosto da formulação sharp: oito em ponto. Gosto do trabalho destes dois poetas de interiores. E muito deste livro. Com fotografias belíssimas. O melhor dos tais dias assim pode ser um bolo e um livro.

Bolo de nozes e maçãs

5 ovos inteiros + 1 iogurte natural + 100 g de nozes picadas + raspa de 1 limão + 4 copos de iogurte de açúcar  + 4 copos de iogurte de farinha + 2 copos de iogurte de óleo + 4 maçãs (1 ralada e 3 para a cobertura).

Numa tigela, mistura-se todos os ingredientes, excepto as três maçãs que vão ser usadas para a parte final. Bate-se muito bem (cerca de 10 minutos) e leva-se ao forno a 170º c durante uma hora e um quarto, sendo que nos últimos 15 minutos o calor do forno deve vir só de cima. Retira-se e deixa-se arrefecer um pouco.

Para a cobertura de maçãs:
3 maçãs (laminadas) + 1 colher (de sobremesa) de manteiga + 1 copo de vinho do Porto + 2 colheres (de sopa) de açúcar demerara + um punhado de arandos.
Simples: todos os ingredientes numa frigideira previamente aquecida. Durante cinco minutos, tendo o cuidado de ir mexendo. Cobre-se o bolo e, quando ficar completamente frio, polvilha-se com um pouco de açúcar demerara.
O livro pode ser comprado aqui
E música para o caminho. One for the road.

É preciso atravessar o Inverno.




























Devia ser como nas fábulas. Nessas histórias, os animais viviam sempre em florestas muito densas, em lugares recônditos e frios. No Inverno, recolhiam-se. Ficavam muito quietos, à espera que passasse. Nós também temos alturas assim: em que gostávamos de ficar muito quietos à espera que passasse. Só que não dá. Na vida real que não é como nas fábulas, vamos caminhando. Uma bela metáfora, a do caminhar. Por isso é que atravessamos o Inverno. O literal. E todos os Invernos de cada uma das nossas vidas, com cada uma das suas pequenas/grandes tragédias.
Será preciso atravessar (mais) este Inverno. Caminhá-lo. Encontrar-lhe o sentido. Que seja como uma árvore despida até ao fim. Que não reste folha nenhuma. A Primavera há-de chegar.
Esta é uma receita para confortar. É comida que nos quer bem. Servida numa mesa coberta das mantas que nos aconchegam nos lugares onde descansamos do mundo e de todas as suas coisas incompreensíveis. Que faça bem a outras pessoas. A mim, fez um bem enorme. Fica a receita. E música que parece o eco de um piano numa casa vazia.
Frango em molho de gengibre e tomate
5 peitos de frango (do campo) + 1 cebola vermelha + 2 dentes de alho + 1 talo de aipo + metade de um pimento verde + 2 tomates (médios) + sumo de meio limão + 1 colher (de sobremesa) de gengibre + 1 colher (de sopa) de Maizena (usei Express) + metade de uma malagueta vermelha (média) + sal, azeite, molho inglês, pimenta preta e coentros q.b.
Num tacho, coloca-se todos os ingredientes. A obedecer a esta sequência: a cebola picada, o pimento em cubos pequenos, o talo de aipo picado, os peitos de frango (cortados em pedaços), os dentes de alho picados (com um pouco da casca, para intensificar os sabores). Depois, os temperos: o sal, o azeite, o sumo do limão, o molho inglês, a pimenta preta, os coentros, a malagueta (muito bem picada) e o gengibre. Com as mãos, mistura-se tudo. E pode deixar-se estar uns cinco minutos, para "tomar o tempero". Depois, junta-se o tomate (descascado e cortado em pedaços) e leva-se ao lume, tendo o cuidado de fechar o tacho. Deixa-se estar durante meia hora, mexendo de vez em quando. Decorrido este tempo, junta-se a colher de Maizena, rectifica-se os temperos, acrescenta-se mais um pouco de coentros, deixa-se apurar mais um bocadinho e serve-se bem quente.

 

De uma maneira ou de outra.









































 Por fazermos muitas vezes a mesma coisa, não quer dizer que a sintamos sempre da mesma maneira. Começamos pela toalha, que parece uma espécie de página, só que sem ser em branco angustiante. Como acontece com todas as páginas vazias que queremos (pre)encher. Com as toalhas é diferente. Não há aquilo da angústia, porque podemos retirar aquilo que não está bem. E ser como se nunca tivesse acontecido. Com as páginas brancas não dá para esse exercício. Dá para riscar. E ficar a marca da hesitação, da bifurcação que nos assaltou num dado momento. Ou dá para rasgar e atirar para longe. De uma maneira ou de outra, sempre aquele rasto.
De uma maneira ou de outra, as coisas vão sendo dispostas. Os pratos que assinalam os lugares à mesa. A seguir, os outros pratos. Os que vão sendo retirados à medida que tudo acontece. Os talheres. Os copos. Os guardanapos. Tudo a obedecer a uma ordem superior. De vez em quando, até dá para pensar que haverá um deus qualquer para estas coisas pequenas que as nossas mãos igualmente pequenas vão fazendo.
De uma maneira ou de outra, a vida precisa de seguir. De uma maneira ou de outra, a vida pede por mais uma página. Mais uma mesa. Sempre só mais uma mesa. Lugar onde nos sentamos. Depois da frase a dizer que está servido o jantar, a visão de coisas que ali estão porque nós existimos. Uma sopa consistente. Um bolo salgado de cebola e bacon a sair do forno. Água quieta em copos altos. Vinho que faz deuses os homens que o fizeram. De uma maneira ou de outra, música. Trevas, um mundo sem música.

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