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O efeito Sofia.





















Na  Teoria do Caos, o efeito borboleta diz respeito a todas as grandes consequências originadas por pequenos acontecimentos. O bater de asas de uma borboleta no Brasil pode originar um tufão no Texas. A alegoria de um matemático, trazida do passado, talvez consiga ajudar-me a (tentar) explicar o que é o efeito Sofia. Sendo que a Sofia não é uma abstracção. É maravilhosamente real. A Sofia do Às nove no meu blog, um lugar especial que todos os dias é o bater de asas de uma borboleta no coração de alguém. Ela vai deixando coisas que fazem bem e o resto acontece por si. Como se um vento qualquer se levantasse. Como naquele momento inqualificável em que as folhas se soltam das árvores e é Outono no mundo e percebemos que o detalhe mais ínfimo do que nos acontece é, afinal, sinfónico. Notas breves e imperceptíveis de algo maior do que o nosso entendimento. Ela procura lembrar-se e lembrar cada uma das notas de cada uma das sinfonias que todos os dias acordam e andam e caem e sofrem e riem e têm medo e voltam a cair e andam para a frente e não sabem o que vai ser e que esperam pelo melhor e que às vezes sentem que é bem difícil esperar pelo melhor e que só dá vontade de entregar os pontos e deixar estar e que afinal não entregam nada os pontos e fazem o melhor que podem ou fazem só o que quiserem e que amam ainda assim. Muito. A melhor parte da sinfonia é o amor. E também o amor tem qualquer coisa do bater de asas de uma borboleta. A Sofia escreve o amor com letras maiúsculas. Todos os dias. E, todos os dias, cada uma das letras que ela escreve desencadeia grandes consequências. Num bater de asas, ela faz com que coisas adormecidas ou arrumadas nos corações, digam às pessoas dos corações que está na hora de fazer qualquer coisa.
Perdi a conta às vezes em que a Sofia partilhou fragmentos dos meus textos no lugar dela. Perdi a conta às vezes em que esse pequeno bater de asas me reconciliou com aquilo que em mim escreve, quer muito escrever, mas que tem sempre receio de não encontrar as palavras justas ou suficientes. Saber que alguém gosta de me ler ao ponto de o partilhar tantas vezes, é só muito lindo. E também agora sinto o receio de as palavras não serem justas nem suficientes, ao tentar escrever sobre ela, sobre o facto de nos termos conhecido e de termos dado um daqueles abraços que as pessoas dão, quando se encontram com a sensação de se reencontrarem.  
No primeiro dia de Novembro, olho para trás, para dizer a Outubro que foi um mês maravilhoso. Por tudo o que resolvi (finalmente) deixar ir, por tudo o que deixei vir. No primeiro dia de Novembro, olho para trás, para guardar bem o dia em que eu e a Sofia nos conhecemos. No primeiro dia de Novembro, guardo aqui estas coisas de Outubro, numa harmonia íntima e aleatória. Uma mesa branca antes de ser posta e a luz nas coisas. Os verdes que vou buscar ao jardim. As histórias que as sombras e as folhas contam no chão e nas paredes. A minha alma grunge, numa das camisas de flanela. O som de Seattle ficou-me irremediavelmente. De cada vez que recupero as minhas camisas de flanela ou as minhas camisolas largas ou a minhas botas feias, algo da miúda inconsequente de 18 anos que foi sozinha a um concerto dos Pearl Jam e que lamentará (sempre) não ter ido a um concerto dos Nirvana. 
E, no primeiro dia deste mês novo, comida que é muito de agora. Outono de comer. Os primeiros boletos deste ano, servidos com este bolo salgado e morno. Os boletos colhidos cuidadosa e carinhosamente pelo Rui da minha amiga Mary. Que alguém queira partilhar comigo uns frutos primeiros da terra deste Outono é tão bonito como aquilo que a Sofia faz, sempre que partilha as coisas que eu escrevo. Sou grata pelas duas coisas. Agradeço aqui essas duas coisas. O melhor que posso, que sei. Com a comida, um vinho maravilhoso aqui do Dão onde eu vivo. E páginas abertas de um livro sobre um ocidental que aplica aos lugares a filosofia wabi sabi como se tivesse nascido no Japão. O Axel Vervoordt que resgata o imperfeito, o inacabado, o deteriorado pelo tempo. Um dos meus escritores disse-me uma vez que um ocidental não consegue perceber bem o Japão. Eu acho que nós não conseguimos perceber bem coisa nenhuma, quanto mais um país ou uma cultura, foi o que respondi. Mas podemos integrar em nós um lugar tão distante quanto o Japão e misturá-lo com umas quantas geografias e isso resultar em coisas maravilhosas. É o que acontece com as casas cheias de alma que este antiquário reinventa. A par disso, outro livro fechado e pousado, depois de ter sido lido e de me permanecer na memória como um dos livros deste ano. Começa com um título delicioso e termina tudo sem fôlego, na última página. O caminho entre o título e essa última página é tempo bem vivido. E não é preciso dizer mais nada, que isto de ler fica ao critério de quem lê. Melhor não dizer outra coisa que não o tal título. Casa de férias com piscina, Herman Koch. Em todo o caso, deixo este texto sobre. Em inglês, mas não por pretensão, é que não há uma linha escrita em português, em nenhum dos nossos jornais. Por esta altura, penso que quero (muito) avançar para um outro livro dele, com um título igualmente concreto e delicioso. O jantar. Outra coisa boa em que pensar, neste primeiro dia de Novembro. Em mais páginas. Lidas. E escritas. Assim seja.

Boletos salteados em vinho tinto

8 boletos + 1 cebola + 3 dentes de alho (picados) + 3 colheres (de sopa) de molho de soja + 2 colheres (de sopa) de molho inglês + 1 copo de vinho tinto + sal, azeite, Tabasco e pimenta preta q.b. 

Pica-se a cebola e os alhos e lamina-se os boletos (não muito finos, para não se perder aquela textura deliciosa). Leva-se ao lume um wok com um fio de azeite e deixa-se aquecer, enquanto se conta até trinta. A seguir, junta-se a cebola e os alhos e deixa-se, até que a cebola fique translúcida. Acrescenta-se os boletos, um pouco de sal, mais azeite e dá-se duas voltas com a ajuda de duas colheres de pau. De seguida, o molho de soja, o molho inglês e o que entendermos de Tabasco, porque cada um sabe do picante que quer na sua vida:) Envolve-se bem e junta-se o vinho. Deixa-se cozinhar durante cerca de cinco minutos. Prova-se para ver se está bom de sal e acrescenta-se, se for necessário. Serve-se logo, que é assim que vai saber melhor. 

A música é da PJ Harvey, a mulher da voz trágica e decadente que esteve no Coliseu dos Recreios, na passada quinta-feira. A esse propósito, deixo um texto sobre essa noite. Há poucas pessoas a escrever (bem) sobre música. O Rui Miguel Abreu é uma dessas poucas pessoas. 


A rapariga do Lidl.

















Quando vou ao supermercado ao final do dia, vejo-a sempre. Por volta das sete da tarde. A hora é mais ou menos essa. Uma rapariga bonita, com ar frágil e tranquilo. Vem sozinha pelo passeio empedrado e irregular. Muito devagar. Numa cadeira de rodas que controla com uns botões. Move-se assim. E a solidão dela é tão bonita quanto inesperada. Estamos habituados a uma série de construções, a uma imagética onde a realidade parece ter de caber. Deve ser por isso que aquela solidão tem qualquer coisa de desconcertante. Mas faz as compras todas sozinha. Nunca a vi com ninguém, em nenhum destes dias. Não há ajudas nem protecções. Orienta-se sozinha e, pelo ar pouco deambulatório com que faz as compras, quando chega a casa, quem faz o jantar, é ela. A rapariga do Lidl. A rapariga que vejo quase todos os dias. Isto não é voyeurismo, nem poesia a partir do inesperado, nem benevolência caridosa, nem aquele registo piedoso e eufemístico que retira dignidade. Olhá-la inspira um respeito enorme. E outras coisas do domínio da grandeza. Admiro-a em silêncio. Sempre que a vejo. Sempre que me lembro dela. 
Andar. Caminhar. Sentar e levantar. Parece tão simples. Tão adquirido. Não se pensa nisso. Nenhum desses movimentos é pensado. E claro que não tem de ser assim. Não temos de dar densidade contínua ao facto de caminharmos ou de respirarmos ou de mexermos bem os dedos. Mas, de vez em quando, esse exercício interior coloca-nos e às nossas angústias intermináveis no lugar devido. A ver se consigo dizer bem o meu ponto: é não ter o direito de. É isso. Eu olho para esta rapariga bonita que anda sozinha numa cadeira de rodas a fazer as coisas "normais" e penso que não tenho o direito de entregar os pontos e de ficar muito triste com não sei o quê que não correu bem no meu dia. Sempre fui muito desse género. Nunca fiquei muito tempo a ter pena de mim, face às inevitáveis tragédias pessoais que fizeram/fazem parte do caminho. Mas esse traço tem uma densidade cada vez maior, muito possivelmente por ser tão posto à prova. Uma e outra vez, a ideia que acaba por (me) resgatar é esse não ter o direito de que repito tantas vezes, a propósito de tantas coisas. Se estou muito cansada porque às vezes as coisas parecem tantas e tão urgentes, que penso que não dá. Uns segundos depois, o meu pensamento vai directo para as mulheres que têm de estar numa fábrica às cinco ou às seis da manhã e que orientam a vida delas e da família como podem/conseguem. E a seguir a essa imagem, a formulação não tenho o direito de. Implacável, a afastar a auto-comiseração. Se estamos vivos. Se o nosso corpo nos permite andar, é mesmo andar em frente e fazer por merecer a vida que há em nós. E claro que sim. Chorar também faz parte do processo. Sentir as mágoas e as perdas e as ausências. Sentir que somos insuficientes ou até mesmo insignificantes. Pedir perdão quando é para isso e sem grandes demoras. Perdoar, se nos for dada essa hipótese. E almas e corações limpos. O mundo precisa tanto disso. 
E de luz. A luz é muito necessária. Mal chego a casa, acendo uma vela perto do fogão. Fica ali no cantinho, a iluminar os mármores e a comida a ser feita. Não é um detalhe místico nem nada que se pareça. É uma daquelas coisas pequenas dos dias. Isso e fazer entradas rápidas, para ir partilhando antes do jantar. Esta é uma daquelas no espírito da comida de que gosto tanto e que faz mesmo sentido partilhar: sem ingredientes estranhos e/ou exóticos, acessível, rápida de fazer e que sabe mesmo bem. Só esta semana, tive de fazer disto duas vezes. Há pedidos que não podem deixar de ser atendidos:) Pode ser feita para entrada de refeições com muita gente à mesa. Ou para os dias normais. Dias como os destas imagens. O Outono aqui. Tenho guardado aqui todas as estações do ano no meu jardim. Desta vez, o Outono ali fora. O Outono que deixa adivinhar os limões que estarão prontos nos meses de Inverno. As marcas das estações todas de muitos anos na terracotta dos vasos grandes. As folhas no chão, as árvores a ganhar as cores fogo desta altura. E a minha gata tranquila, que anda sempre por aqui. É isto. Comida dos dias normais. Os tais dias em que vejo a rapariga do Lidl. A fazer a vida normal. Contra todas as hipóteses de normalidade. Às vezes, é assim. As hipóteses todas que estão contra não valem nada. As pessoas fazem a diferença, nesses processos que parecem perdidos à partida. 

Chouriça com cebola vermelha em (muito) vinho tinto

NB: Esta receita ficará arruinada se não se usar chouriças de qualidade. Os talhos que merecem a nossa confiança têm (quase) sempre produção própria. Escusado será dizer que todas as chouriças que forem laranja terão como única consequência disseminar esse laranja desinteressante no molho e transformar isto numa lástima. 

1 chouriça + 1 cebola vermelha + meio litro de vinho tinto + 1 colher (de sopa) de açúcar amarelo + azeite, coentros q.b.


Corta-se a cebola em rodelas finas (costumo usar a mandolina, que fica melhor) e a chouriça em rodelas em viés, para cozinharem melhor e para ficarem mais bonitas:) A seguir, leva-se ao lume uma sertã (larga) com a cebola, num fio de azeite generoso. Deixa-se estar uns segundos, até sentirmos a cebola a "estalar". Nesse momento, acrescenta-se as rodelas de chouriça, dá-se uma volta breve com uma colher de pau e acrescenta-se a primeira dose de vinho, até cobrir a chouriça e a cebola. Deixa-se evaporar e acrescenta-se vinho outra vez. Volta a evaporar e, a seguir, mais um pouco de vinho. Da última vez que se acrescenta o vinho, junta-se a colher de açúcar amarelo. Mexe-se e é esperar até que o vinho evapore um pouco, mas não totalmente. Pode juntar-se mais um fio de azeite, no final e coentros, se assim se quiser. Serve-se e é só esperar pela alegria, mal isso aconteça:)

Antes de fechar esta página, queria deixar a minha gratidão à Sofia. Por isto que ela fez. Que foi tão bonito quanto inesperado. Não estou habituada a ser citada. Conheço outras dimensões, nisto das palavras. Não muito boas, infelizmente. Foi bom conhecer esta, para variar um bocadinho. E num sítio solar como o Às nove no meu blog, que procura deixar coisas boas todos os dias. Não consegui agradecer de outra forma, fica aqui. Tenho muitos defeitos, mas não o da ingratidão. 

A música é esta porque me tem acontecido todos os dias desta semana, enquanto conduzo. Branko. Let me go.




Submissão.













As coisas interceptam-se, cruzam-se, misturam-se umas com as outras. Os livros com os vinhos mais a comida e a música e uma imagem qualquer que nos fica no olhar. Creio que não dá para ser de outra maneira.
Estava à espera deste livro. Pela escrita sanguínea do Michel Houellebecq, em primeiro lugar. Há qualquer coisa de intravenoso, na (boa) literatura. Alguns escritores ficam-nos, como se fossem seiva. Outros não, não passam da epiderme. A vida é assim mesmo. Impiedosamente (in)justa. Porque aquilo que sinto, face a livros como este, é que nos acrescentam razões para seguir. Página por página, no mais imediato dos sentidos desse "seguir". Mas também no outro mais interior. Que os nossos escritores escrevam mais. Que haja mais livros deles. Uma boa razão para seguir. Acontece-me com o Philip Roth, com o Ian McEwan. A muitos outros, resta revisitar, embora me falte demasiados livros, para chegar a essa fase de andar a reler. Isso é mais para os académicos a sério ou para os que têm a sorte de poder fazer da leitura uma ascese e que podem repousar no mais ilimitado dos paraísos: uma biblioteca.
O livro chama-se Submissão, mas convoca, invectiva, discute, coloca cenários políticos e sociais e religiosos que parecem cada vez mais (estranhamente) possíveis. A possibilidade de submissão de um país inteiro. A ideia de submissão latente no Islamismo. Que começa exactamente no controlo das mulheres. Começa-se por aí, por controlar as mulheres. Sempre. Controlar as mulheres significa dar margem a todas as outras formas de submissão. Por isso, há muito que penso que a chave estaria sempre na insubmissão nua das mulheres muçulmanas. Os homens e todos os inviesamentos teóricos que vão construindo para lutar contra o medo ancestral das mulheres, do poder feito mistério que vive no sexo delas. É de medo, que se trata. Nesta e em outras religiões. O mesmo medo que faz com que seja possível a excisão clitoriana. Praticada por mulheres. Lá está. Seja como for, li este livro de um fôlego, pela madrugada dentro. Com a mesma paixão com que li os volumes de Tolstoi e de Dostoievski, durante o tempo de faculdade. Com a mesma voracidade com que li cada um dos romances duros do Philip Roth. E só assim é que vale a pena ler, que os discursos mais ou menos edificantes, mais ou menos pedantes a propósito da leitura não me interessam minimamente. Melhor passar por cima disso. 
Para um livro magistral, um vinho especial. É branco, o que não deixa de ser curioso, porque gosto mais de vinhos tintos. Ganhou há uns dias o título de melhor vinho branco do mundo. Uma daquelas formulações definitivas. Nesta e em muitas outras coisas, procuro guiar-me pelo meu critério, que é bem simples: gosto ou não gosto. E gosto muito deste branco que parece mesmo pedir a companhia de uma receita como a que fica hoje. Feita na sequência de uma oferta carinhosa de uma amiga alentejana, que se lembrou que eu fico bem feliz com surpresas assim. O meu carinho para ela, aqui nestas imagens-resultado da inspiração desses espargos trazidos da Primavera no Alentejo. 

Tortilla de espargos selvagens e de linguiça de porco preto
NB: Não é fácil arranjar espargos selvagens, por isso, fica a referência necessária de que esta receita fica igualmente bem com espargos verdes, previamente grelhados. Assim: uma sertã quente, sem nada. Os espargos, quebrados com as mãos, na parte em que cede. Oito minutos depois e umas quantas voltas na sertã, retira-se os espargos, salpica-se com flor-de-sal e um fio de azeite. 


5 ovos inteiros + 1 molho de espargos (só as pontas, reservando-se o resto para migas ou para saltear com batatas, por exemplo) + 10 rodelas de uma linguiça de porco preto (costumo usar esta) + 1 fio de azeite + flor-de-sal e pimenta preta q.b. 

Coloca-se os espargos e a linguiça (cortada em pedaços pequenos) numa sertã, com um fio de azeite. Deixa-se saltear levemente (cerca de 3 minutos), mexendo com uma colher de pau. Entretanto, bate-se os ovos, temperados com um pouco de flor-de-sal e com pimenta preta. Acrescenta-se aos espargos e à linguiça, mexe-se, para distribuir bem e deixa-se estar um minuto exacto, em lume médio, no caso de se estar a utilizar uma sertã de ferro fundido ou três minutos, nas outras. No primeiro caso, depois desse minuto, leva-se ao forno, a 180ºc, com o calor a vir só de cima, até ficar pronta (não indico tempo, que isso pode variar consoante a densidade e a qualidade dos ovos). No caso de se estar a usar uma outra sertã, basta esperar os tais três minutos, virar para um prato e voltar a deixar cair na sertã, com o lado que não estava cozinhado virado para baixo. A partir daí, bastarão uns segundos e estará pronta. Pode ser servida quente ou pode ser guardada e ser comida fria. Sabe bem das duas maneiras, que eu sei:) 

Com este livro, com esta comida, com este vinho, a voz poderosa da Janis Joplin, associada à doçura desalinhada da Natalie Portman, num anúncio recente a um perfume que me é muito especial. Uma narrativa de insubmissão, a deste anúncio. Comercial e tudo o mais, mas uma narrativa de insubmissão. Parece-me bem. 


Primeira impressão.







Alguém disse que não há uma segunda oportunidade para uma primeira impressão. Pode ser discutível, como todas as formulações deste género. Mas há nela uma verdade muito intuitiva, mesmo que passível de ser desconstruída. A verdade é que, se pensarmos bem, é um pequeno desastre, quando as primeiras coisas que servimos não estão bem. Daí ser ainda mais importante não facilitar e fazer coisas que conheçamos by heart. São as coisas que fazemos sem estar a pensar muito. As coisas que retiram gravidade ou solenidade aos momentos iniciais de uma refeição. No fundo, é como se a comida fosse uma manifestação da vontade de nos libertarmos da tal angústia do desempenho. Como se dissesse para nos descontrairmos e para gozarmos o momento. Costumo dizer que fazer experiências quando recebemos é como usar sapatos novos numa ocasião formal. Receita certa para o desastre:)  
E então, entradas como a que deixo hoje, são como usar sapatos que já estão moldados, habituados aos nossos pés. Quando é assim, a circunstância mais impiedosamente formal, pode ser só um passeio pelo parque. A receita é esta. Feita muitas e muitas vezes. Gostada muitas e muitas vezes. Fica aqui. 

Guacamole 

1 pêra-abacate + 1 tomate (pequeno) + metade de uma cebola vermelha + 1 pimento doce (amarelo e pequeno) + um punhado de pimentos jalapeños + 1 punhado de coentros + sumo de 1 limão + flor-de-sal e pimenta preta q.b. 

Primeiro, descasca-se a pêra-abacate, parte-se ao meio e esmaga-se com um garfo. A seguir, tempera-se com o sumo do limão, a flor-de-sal e a pimenta preta. Envolve-se bem e reserva-se. Pica-se a cebola, o tomate, os pimentos e os coentros. Integra-se na pasta de abacate e envolve-se bem. Prova-se, para ver se o tempero está bem e, se necessário, rectifica-se. Serve-se com tortilhas. Ou com tostas de centeio, no meu caso. 

Com o que servimos para beber, o mesmo princípio de não estar a fazer experiências. Melhor a versão em que servimos coisas que já foram gostadas muitas e muitas vezes. Como este espumante, que motiva sempre boas primeiras impressões. Consigo encontrá-lo nesta mercearia de bairro, na Foz. Ou na Wine o'Clock

A música é esta por ser tão de dançar. Mas em movimentos lentos, ponderados, bem respirados.


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