Ao balcão do Gambamar.

De vez em quando, damo-nos conta de que há lugares que conhecemos há muito tempo. Lugares que já nos viram chegar muitas vezes. Há cerca de dez anos que sim, que chego ali. E acabo sempre por escolher o mesmo sítio naquele balcão longo. Para além da comida, é bom o reconhecimento tácito. Um sorriso na medida certa. Para a menina. No Porto, somos sempre meninas. Às vezes pergunto-me como será daqui a mais dez anos. Se para os senhores do Gambamar, continuarei a ser menina. If I ever get there. Com o sorriso, vem a carta. Muitas coisas do mar, para fazer justiça ao nome. Mas outras coisas. O prato certo em dia certo. A acrescentar às ideias a propósito deste sítio. Os sabores que são muito do Porto. Tripas, francesinhas. Sobremesas que não mudam com o tempo. Que se vão mantendo. Com nomes que eu via nos livros de receitas antigos, cheios de preceitos. Charlotte de chocolate, trouxas de ovos.
Sempre que sim, que é dia de Gambamar, é altura de reparar ainda mais nas coisas. Acontece muito, quando comemos às mesas que amenizam muito a solidão. E é sempre muito bonito olhar a maneira cheia de sensibilidade com que os senhores deste sítio servem. Muito nobre, o gesto de servir. Cheio de dignidade. Um afecto guardado para as crianças que trepam aos bancos altos. Um cumprimento quase silencioso para quem vem comer rápido e pronto. Sem querer conversa nem intimidade. Um certo grau de familiaridade para as pessoas que são como os pratos, que vêm em dia certo.
Então, ali, eu sou a menina. O meu marido tem direito a ser senhor:). E há sorrisos que dizem que nos hão-de sorrir outra vez. Que hão-de aguardar até ao próximo dia certo com prato certo. Em que vamos voltar a sentar-nos ao balcão do Gambamar.

2 comentários:

  1. No Porto somos sempre meninas. Uma das coisas boas daqui. Desta gente franca e acolhedora. Daqui a dez anos serás menina também.... E é bom regressarmos a estes sítios que são de sempre. De uma certa cumplicidade, mesmo quando permanecemos praticamente e só uns desconhecidos-conhecidos. Que por um hábito compassado nos começamos a ver.
    Babette

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  2. Já reparei que sim. Em todos os lugares, este cumprimento que faz com que sejamos sempre sem idade. Ou então, que tenhamos ficado indefinidamente paradas no tempo em que nos chamam de meninas:)O Porto é uma cidade muito especial, mesmo. E trata-nos sempre tão bem, a tua cidade.
    Escreveste tão bem. O Vasco falou da densidade das tuas frases finais. Muito boa, a tua formulação a propósito do Gambamar. Um dos sítios de sempre. De voltar sempre.

    Um beijo da tua amiga Mar.

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