Sol, céu azul, flores e um jantar sofrível.




E todas as coisas luminosas, a propósito de um dia como o de hoje. Por ser o primeiro da altura do ano que nos traz os perfumes e as cores. Por ter estado sol que aquece sem sufocar. Por ter sido hoje. Só por isso, no fundo. O dia de hoje ter sido. A manhã cheia. O almoço sem pessoas à volta. O vento em pleno, enquanto conduzia. E a minha música. Intro, The XX. Há coisas que não se gastam.
Nesta altura, um olhar renovado. Dirigido a um lugar simples: o meu jardim. Contemplado em fragmentos. As últimas flores das magnólias. As primeiras das azáleas. A fragilidade das árvores orientais. As canas da índia a quererem tomar conta de tudo. As escadas de pedra. As heras disciplinadas por mãos silenciosas. Os caminhos sinuosos de pedra. Uma escultura vegetal, em mármore. E o céu em cima. Muito céu azul que houve.
E o dia de hoje significou também a memória de um jantar que não ficou bem. Que aconteceu assim. Um erro. Tarefas sobrepostas. Sabores que não se conjugaram. Sofrível, o meu jantar de hoje. Só tolerável. Daqueles que não apetece prolongar. Muito menos inventar que sim, que estava bom. Não, não estava bom. Fazer o quê?
Aceitar, então. Que não correu bem. Mas a vontade de desconstruir. De fragmentar. De perceber. Uma espécie de pedagogia do erro, talvez. Para antever as coisas boas que um erro nos pode trazer. Se o pensarmos. Se não nos distrairmos. Sem que isso signifique ficarmos retidos, presos ao que nos nega. Se integrarmos, libertamo-nos. Então, aceitar serenamente o meu jantar sofrível de hoje. Uma boa maneira de dar as boas-vindas à Primavera. Porque também foi assim que aconteceu, o dia de hoje. E acabou mesmo por ser a parte mais importante. Falhar. Errar. Cair um bocadinho e lamentar. Mas ver tanto à frente. Todos os jantares que hão-de correr bem. Lá para a frente. E todo o caminho até lá.

6 comentários:

  1. Linda maneira de escrever o erro. Que não terá sido assim tão grande. Sabe porquê? Por não constar no relato que alguém tenha ficado doente! Aí sim, era mesmo de ficar triste alguém indisposto por nossa culpa! Adorei a sua mesa de ontem. É como um quadro, lendo os comentários, cada um olha à sua maneira. Eu vejo o branco como algo que me faz evocar pedaços da minha adolescência, adorava roupa branca. Fazia muito contraste com o meu cabelo e era motivo de elogios, tanto mais porque poucas o usavam, talvez procurando " dar mais
    nas vistas" com outras cores mais na moda.Pois sempre achei que não há cor mais berrante que o branco!
    Tenha um rico dia e pense num outro jantar que seja sucesso garantido. Beijinho à transparente e boa pessoa chamada MAR.

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  2. Mar
    Dar as boas-vindas à Primavera depois de um período cinzento e quase letárgico é como embarcar no renascer...Também terá que ser assim a nossa atitude perante o erro. Como diz Sophia no seu poema,poderemos/devemos enfrentar, superar e recomeçar a partir da página em branco...
    Beijinhos
    Emília Melo
    devemos enfrentar,superar e recomeçar a partir da página em branco...

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  3. Nem haveria perfeito, se não existisse o imperfeito.... Já sei da história. Tão comum. Nem sempre sai tudo bem. O que importa é termo-nos rido disso!... E não contes ao Sr. Manuel!!!
    Beijo (já melhor)
    Babette

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  4. Olá Lusitana:

    Um erro, o meu jantar de ontem. Mas preciosa, a ideia de regeneração associada à falha. Nada de muito sofisticado, no fundo. Todas as pessoas que cozinham ou gostam de, sentem isto algures. Mas hoje já correu bem outra vez:)
    As mesas de domingo são sempre especiais. Sempre expressão de tempo demorado, cada uma dessas mesas. Dizem que gosto de estar aqui. E o branco é quase sempre a cor de eleição. Por permitir escrever o resto. Obrigada por ter gostado de a olhar.
    Bela, a evocação da sua adolescência. Vestida de branco, a contrastar com o cabelo.Um pedacinho luminoso de vida.
    Não estou certa de ser transparente. De conseguirmos isso. Mas sei que preciso de dizer que falho. Nunca me esqueço desse princípio muito elementar. Assumir que não correu bem.

    Um beijo de final de dia.

    Mar

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  5. Olá Emília,

    Deixou tanto. Deixa sempre. Mas essa ideia da página em branco. A aplicar-se ao que sinto. Esses três verbos: enfrentar, superar, recomeçar. Ficam aqui. Hoje. Pela lição silenciosa que encerram. A partir de uma página em branco. Obrigada por isso. E por si. Mais uma vez.

    Um beijo.

    Mar

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  6. Olá, minha Babette

    Pois. Sabias da história. Contei-te a minha frustração, antes de a escrever. É sempre bom dizermos as nossas imperfeições. Redentor, esse gesto. Também neste domínio da comida. Até chegarmos ao ponto, é preciso falhar. E daí retirar o bom. Que também pode ser rir um bocadinho do que não nos confirma:)
    E não, não vou contar:)

    Um beijo.

    Mar

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