Premissas aleatórias.


Esta é uma daquelas coisas que nasceu de convergências. Vários elementos, aparentemente aleatórios, que coincidiram. Como nos filmes. Primeiro, o conceito. Enquanto olhava a minha irmã, atarefada, a fazer uma entrada para um jantar. Depois, o pretexto. Um presente a meio de um dia de trabalho: muitos legumes frescos, flores acabadas de colher e o ingrediente que faltava para desencadear tudo: ovos de codorniz. No fim, uma vontade enorme de fazer convergir as minhas premissas aleatórias.
O conceito é relativamente elementar: um recheio simples de alheira em invólucros vermelhos. E ovos de codorniz a finalizar, numa espécie de recriação da ideia da cereja no topo do bolo. Uma daquelas fórmulas iniciais de que não nos esquecemos. Uma entrada que me fez lembrar as imagens dos livros da Maria de Lourdes Modesto, folheados quando pequena. E eu iria ser capaz de executar todas aquelas coisas. Um dia. Dizia isso muitas vezes. Enquanto não, tentava recriar as imagens dos livros, à medida do olhar fresco da minha idade. E não sabia o que era banho-maria, por exemplo. Mas a receita tinha que ficar como no livro. À conta disso, o meu pai, a vítima preferencial das minhas experiências, era docemente intimado a provar tudo. Ou a comer até ao fim:) Enquanto os meus olhos ansiosos de nove anos esperavam pelo veredicto. Se estava bom. Se tinha gostado. E havia mesmo alternativa à pressão de um olhar tão inicial? Coisas da nossa memória afectiva.  

Fica a receita a que não consegui atribuir um nome:

5 tomates médios (não muito maduros) + 1 alheira de caça + 1 cebola picada + metade de um pimento amarelo + azeite, sal e pimenta q.b. + queijo mozzarella ralado a gosto + cebolinho picado + 5 ovos de codorniz.

Primeiro, liga-se o forno. Depois, corta-se a parte de cima de cada um dos tomates e retira-se o interior  com uma colher. Reserva-se a polpa. Entretanto, retira-se a pele à alheira e esmaga-se com um garfo. Leva-se a cebola e o pimento ao lume, num pouco de azeite. Quando a cebola estiver levemente translúcida, junta-se a polpa de tomate que estava em reserva e integra-se. Junta-se, por fim, a alheira esmagada e tempera-se com sal e pimenta. Retira-se do lume e adiciona-se o queijo mozzarella e o cebolinho, envolvendo bem. Coloca-se este recheio em cada um dos tomates, tendo o cuidado de não preencher demasiado, para haver espaço para o ovo de codorniz. A encimar este recheio. Leva-se ao forno o tempo suficiente para o ovo ficar no ponto certo (15 minutos no meu forno temperamental:).
Depois, temos uma salada à espera. E vinho branco. Enquanto se evoca o céu de ontem. Na Avenida da Liberdade, a olhar um céu azul. Uns segundos azuis e indescritíveis, bem no centro do ruído surdo da cidade. A concentrar-me no silêncio de uma luz de que gosto muito. A luz do céu de Lisboa.

5 comentários:

  1. Mar
    A vela Jonathan Adler(?)observa a conjugação de cores e sabores.A alvura do prato.O clássico da renda emoldurada por linho.O pé alto de um copo de vinho que se adivinha fresco.E o azul luminoso do céu.Imagem eloquente de uma Primavera que começa a bater à porta!Apetece abrir e ...viver...

    UM beijinho com muita admiração
    Emília Melo
    P.S. A conjugação do sabor quente da alheira e do ovo jogou bem com o fresco do tomate ?

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  2. Uma convergência mais, na publicação quase ao mesmo tempo de uma utilização de uns delicados ovinhos de codorniz. Imagino uma combinação de sabores muito feliz. Com essa luz tão própria e bela de uma Lisboa em dia de rebuliço.
    Um beijo
    Babette

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  3. Olá Emília,

    Sim, mais uma vez a sua intuição a funcionar. A vela é Jonathan Adler. Muito perfumada. O prato é da nossa loiça. Bordallo Pinheiro. Muito depurado, ao contrário do habitual.
    A toalha era da avó do meu marido. Um dos objectos que resgatei de gavetões pesados onde ninguém mexia há anos. Gosto de a ter à mesa, para lembrar a herança de uma mulher devotada ao sentido de casa.
    Muito fresco, o vinho branco no copo.
    O céu azul de uma visita de estudo com os meus alunos. Levei-os ao DN, para serem jornalistas por um dia. Muito felizes, que estavam.
    Esta associação ficou muito boa. Nada perturbava, porque tudo se harmonizou. Experimente um dia. É uma boa maneira de dar início a coisas boas:)

    Um beijo de antecipação da Primavera. Para a minha Emília Melo.

    Mar

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  4. Olá minha amiga doce (mais uma vez em trânsito:)

    Dizes bem. Mais uma convergência. Desta vez, neste ingrediente delicado. Uma oferta muito bonita de pessoas que sabiam que eu os ia combinar com alguma coisa. Esta foi uma das variações possíveis, em torno de ovos delicados de codorniz.
    O dia agitado de 3ª feira. Com os meus alunos na "cidade grande". Levo-os lá todos os anos. Com os mais variados pretextos. Havia este céu muito azul. Quis trazê-lo comigo.

    Um beijo para ti. Com céus azuis e nuvens a dissipar-se:)

    Mar

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  5. Ministério da Saúde18 de março de 2011 às 11:53

    A felicidade deve fazer parte da vida. Com o programa Saúde Não Tem Preço, dias melhores chegarão para todos os brasileiros com a gratuidade dos medicamentos para diabetes e hipertensão. Assista ao vídeo da campanha: http://bit.ly/gdQQa7

    Siga-nos no Twitter e fique por dentro: www.twitter.com/minsaude
    Para mais informações: comunicacao@saude.gov.br ou www.formspring.me/minsaude
    Obrigado,
    Ministério da Saúde

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