Um doce italiano e um livro.


Panne cotte ou panna cotta. Que significa literalmente "nata cozida". Um doce que andava para fazer há muito tempo. E então, procurei inspiração num livro que me é especialmente precioso, por descrever aquilo que eu quero fazer um dia. Que é ir. Durante uns meses para a Toscana e cozinhar. E ir aos mercados. E conhecer pessoas que me ensinem os sabores e os aromas e as texturas. No final do Verão e no pleno do Outono, para viver a altura mais generosa da Natureza. O livro tem um daqueles títulos previsíveis Sabores da Toscana. Mas o conteúdo é generoso como a Natureza no Outono. As imagens da comida, dos mercados, das mesas, das pessoas. Os textos. E, muito principalmente, a descrição de uma viagem empreendida por duas mulheres australianas. Só para cozinhar. Só por isso. E eu sei que há-de acontecer. Sei que algures no percurso breve que é uma vida, há-de surgir a minha viagem prolongada a Itália. Bela a ideia de ser demorada, até porque mesmo que as viagens sejam condensadas em três, quatro dias, tento sempre que haja momentos demorados. Mesmo que fiquem must see places por ver. Museus, monumentos. Não me interessa dizer que vi, que estive lá. Porque as memórias mais vívidas surgiram nesses minutos em que me demorei a olhar o momento que estava ali para ser vivido. E assim, Paris há-de saber sempre a um copo de vinho branco, uma salada frugal e queijo. E à minha solidão procurada, numa das pontes, a olhar o Sena. Milão é um risotto com amarone no Principe di Savoia, o kir royal de final de tarde de um certo filósofo cheio de charme. E a surpresa de um lenço vermelho dentro de um embrulho laranja. Qualquer cidade em Espanha é a memória dos perfumes misturados das mulheres, em saídas boémias e barulhentas. O sul de França é um itinerário longo que lembra ratatouille. O Rio é alegria exuberante por todo o lado e a memória de mim, muito nova, a entrar devagar numa sala cheia de pessoas. Para cumprir um ritual que não entendia na altura. E aprender a dançar valsa. E caminhar de saltos altos, quando só queria usar sapatilhas. Faltam tantos sítios. E eu gosto tanto que me faltem tantos sítios. Que haja ainda tanto para remanescer em mim. Pelos lugares, pela comida, pelos cheiros. O que ficar de um todo, no final.
Assim, este doce italiano anuncia-me um lugar próximo, num futuro próximo, onde irei em busca de coisas para amar. Para passarem a ser um pouco da Mar. Como diz a página aberta do meu livro. Perdido é todo o tempo que não se passa a amar. Tão certo. E tão simples. É assim que penso. Em procurar sempre o amor. No sentido mais vasto da palavra. Amar os meus dias. Amar a dádiva dos que quero muito. Amar os sorrisos e as palavras. Amar o meu trabalho. Amar mesmo cada um dos minutos em que sinto que vou abaixo. Cada um dos minutos em que falho ou em que me falham. Amar a inteireza com que me dedico ao mais doce e árduo dos ofícios: o de viver. 
Este doce foi vivido assim: 

250ml de leite + 250 ml de natas + 70 g de açúcar + 1 vagem de baunilha + 3 grãos de café + 3 folhas de gelatina branca.

Unta-se cinco formas com óleo. Depois, leva-se a lume brando o leite, as natas, os grãos de café e a vagem de baunilha aberta ao meio. Enquanto não ferve, dissolve-se as folhas de gelatina num pouco de leite frio. Quando esta mistura ferver, dissolve-se as folhas de gelatina no preparado, elimina-se os grãos de café e a vagem de baunilha, coloca-se nas formas e espera-se que o tempo se encarregue do resto. Na altura de servir, passa-se uma faca ligeira nas bordas das formas, inverte-se com cuidado e finaliza-se com o doce que quisermos. Este foi de uva. E ficou bem. Muito bem, até. Na primeira vez que fiz este doce italiano, que me fez pensar em ir, num livro e no remanescente de uma viagem. Uma doce viagem, esta.

9 comentários:

  1. Pode não acreditar... mas há anos que sonho com uma viagem mais demorada por Itália. Com passagem em várias pequenas cidades toscanas... Com tempo para saborear o que Itália tem de tão especial. Saborear pequenos momentos que fazem das viagens as "nossas" viagens. Únicas e Intransmissíveis.
    E voltar a Florença, onde passei uma doce Lua-de-Mel...
    Babette

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  2. Também tenho este livro, e de facto é como se as pontas dos nossos dedos traçassem uma rota de sabores, de experiências vividas, de pausas merecidas só para contemplar o que é, para mim também, uma dolce vita.
    Escreve magnificamente. Gostei mesmo muito de a descobrir. Sandra

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  3. Que delícia de texto. O coroar perfeito de uma (também muito) boa refeição. Uma ode à paixão, à inspiração, às memórias, ao amor com que são feitas as coisas. E perseguidos os sonhos. Eu vou lutar sempre pelo meu. Que será feito de muitos sacrifícios, é certo, mas que tenho a certeza que acontecerá. No próximo ano, ou no outro. Não para dizer que estive, mas antes que vivi. Que fui eu. Que me superei.
    Espero que o seu se realize logo que possível, que lhe traga muito para amar, para que a Mar partilhe connosco todas as memórias queridas... e inesquecíveis.
    Com carinho. Cristina

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  4. Ainda eu... Não conheço o livro, mas a vontade de o folhear e me perder nas páginas feitas de cores e sabores é agora enorme. Obrigada!
    Cristina

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  5. Para a Babette:

    Só imagino isso. Que a Babette tenha uma ideia semelhante. Porque gostar de fazer comida implica quase necessariamente um sonho com estes contornos. A ver se sim. Um dia. Todos os Outonos me lembro disso, que há essa possibilidade. Adiada, por enquanto. Só por enquanto.

    Beijo da Mar

    PS: Já respondi ao seu email.

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  6. Para a Sandra:

    Este livro foi um achado. Um verdadeiro achado. Li-o como a um romance. Não o consultei só, como fazemos normalmente com os livros de cozinha. Demorei-me nas páginas, nas imagens, nas descrições.
    Gostei muito que tenha chegado aqui, Sandra. E que tenha gostado que isso tivesse acontecido. Uma coisa boa do meu dia: ter sido "descoberta" por si!

    Beijo da Mar

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  7. Para a Cristina:

    Pode falar do seu sonho? É partilhável? Deve ser algo significativo, pela descrição. Este é um dos meus projectos. E digo projecto para o resgatar da condição de intangibilidade. Ou para que simplesmente assuma uma dimensão que me seja próxima. Real.
    Gosto (muito)da ideia de ser lida por alguém empenhado em persistir num sonho. É muito grande, esse exercício, o da persistência. Eu sou assim. Embora haja o outro lado dessa entrega à persistência. Saber que quando desisto é quase irreversível. Digo sempre isso aos meus alunos, no início do ano lectivo. Que espero nunca desistir de algum deles. Porque se isso acontecer, é sinal de que algo definhou, morreu.
    Obrigada pelas suas palavras generosas. Pela ideia de persistência que aqui deixou. E tente descobrir este livro, se aceitar a sugestão. Dá-nos muito. São assim, os livros.

    Beijo da Mar.

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  8. Mar,gostei muito do texto, quanto a' receita e' mesmo um dos meus doces favoritos ;-) Beijinho, gostei de conhecer o teu cantinho

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  9. Obrigada. Pela visita. E pelas palavras doces. Também já estive a conhecer o sítio onde estão guardadas as suas receitas:)E gostei muito!

    Beijo da Mar.

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