De um dia para o outro.




Começa o mês em que chega a Primavera. Hoje é o dia em que se dá início ao mês em que se antecipa o renascer. Traduzido em flores, nas cores que elas nos dão. Em aromas múltiplos, que nos surpreendem em momentos muito imprevisíveis, que guardamos na nossa memória olfactiva (e afectiva). No verde vibrante das folhas novas, suspensas das árvores que aguardaram pacientemente. Nuas e frágeis. À espera do verde.
Um dos meses mais preciosos do meu calendário íntimo, o dos afectos. Por ter marcado, há muitos anos, um reencontro. Que se prolongou. O dia 20 de Março. E a Primavera que havia em mim, num aroma difuso a flores e frutos. Suave, mas suficientemente marcante. Uma edição limitada. Impossível de recuperar. Só na memória. Só aí pode ser recuperado. Muito sol naquele dia. E a dádiva de um reencontro, pacientemente esperado. Como a espera doce das árvores e das flores recolhidas na terra durante o Inverno.  
Quis guardar hoje o que estava a acontecer lá fora, no jardim. Imperceptível, quase sempre, o que acontece ali fora. Mas, de repente, as magnólias têm flores. De repente, as azáleas japónicas vestem-se de muitas tonalidades de rosa. De repente, as cerejeiras de jardim são uma mancha rosa e branca no horizonte de um universo condensado. Sempre de repente. E de um dia para o outro, as minhas rosas preferidas anunciam-se. Pelo aroma. E então sei que sim, que fizeram o seu caminho. Desço as escadas de pedra e as mãos abrem caminho por entre a densidade das heras. E em casa, passa a haver aroma doce de rosas. A integrar-se em mim. E nas coisas que nascem das minhas mãos. A mesa. E a comida na mesa.
Tudo de um dia para o outro. Para ser preservado aqui. Por não saber(mos) se há mais um dia. Se temos mais um dia como o de hoje. Com sol e flores e árvores. Uma ideia libertadora. Estranhamente libertadora. A de não tomarmos o dia como certo. Porque é sempre de um dia para o outro. Que podemos deixar de existir. Mas uma felicidade enorme. A de existir hoje. No dia em que começa o mês da Primavera.

8 comentários:

  1. Mar, para quem o mês de Março é importante. Também o é para mim,recheado de datas a comemorar, entre as quais a data de um prolongado namoro! E bem, já valeu a pena começar o dia com a sã leitura do seu post, agradecida como está à dádiva de um dia como o de hoje! E com a sabedoria de que cada dia...é um dia especial!
    Tenha tudo de bom na vida e um beijinho!

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  2. Um dia que marca o início do mês da Primavera. E pelos vistos um mês que te é especial. De reencontros bons.
    Um beijo. Falamos melhor ao almoço!...
    Babette

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  3. Olá à Lusitana:

    Que bom que começou o dia aqui. Um dia que tenho a agradecer também por isso. Porque está aí. Algures. Uma maneira muito poética de se assinalar, esta.
    O mês de Março é muito lindo. Por motivos que me são exteriores. E pelos outros. Os que são interiores. Que têm feito com que cada dia seja uma dádiva.

    Um beijo para si. A desejar também que tudo na sua vida seja doce, de tão bom!

    Mar

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  4. Olá Babette!

    Mesmo depois de falarmos. Mas estas palavras foram deixadas aqui. Não podiam ficar a flutuar, pois não? Muito especial, o mês de Março. Pelas coisas de que já falámos, quando estivemos pela primeira vez. E por outras, de que iremos falar, certamente.

    Um beijo.

    Mar

    PS: Vai ver os comentários ao post sobre a casa da Boavista. Esqueci-me de te dizer há pouco. Tão especiais, todas. Aqui.

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  5. Olá Mar,

    Estou viciada no seu blog, não passo um dia sem o visitar. Adoro a sua visão da vida.Valoriza as coisas pequenas.As suas palavras sempre tão doces.As suas mesas brancas, lindas...O seu blog tem me influenciado tanto, que estou a renovar as minhas louças, decorações das mesas, etc..

    Já agora, o serviço de louça branca da zara home, como se chama? serviço americano?.

    Obrigada mais uma vez por ter um blog assim...

    Maria José Duarte

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  6. Olá, Mar
    Este é um texto de quem escuta a natureza com muita atenção, para conseguir captar os mais pequenos ruídos que possam antecipar o desaprochar de uma magnólia ou o desenrolar de uma folha. O som chega através das palavras e das pausas na leitura. Da expectativa em que nos deixa no fim de cada frase.

    Num outro registo, tenho também de referir que cada vez me convenço mais que deveria ter-me inscrito na disciplina de Botânica. Ainda bem que hoje estabeleceu esta diferença entre magnólias e azaleas japónicas, porque já as estava a confundir.

    bjs

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  7. Olá Maria José,

    Que lindas as coisas que disse. Acredite que as agradeço muito. Com muito carinho.
    Gosto mesmo muito das coisas pequenas. Sem elas, os dias seriam difíceis de distinguir entre si. Rituais em vez de rotinas. Estar disponível para o que a vida nos oferece. Mesmo que sejam coisas tristes ou más, essas coisas. Mesmo assim. Está em mim, esse traço. Não há nada a fazer quanto a isso:) Creio que só uma grande tragédia me impediria de procurar fazer o melhor que posso com a vida que me é concedida. Todos os dias.
    E sim. Procure loiças. Copos. Toalhas. E flores. Procure coisas pequenas. Eu gosto de a imaginar a procurar. E que venha aqui. Partilhar coisas boas.
    A loiça é essa que disse. Comprei algumas peças. Gosto muito de pratos brancos. Permitem bem as outras cores. Outros elementos mais barrocos. Ou só brancos. Para prolongar.

    Um beijo. Feliz. Pelas suas visitas diárias. Pelo que adivinho em si.

    Mar

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  8. Olá Fa,

    Estas imagens hão-de significar sempre o silêncio que havia no meu jardim. Num domingo de manhã. E esse silêncio diz-me que os dias passam. Que da chuva e das árvores despidas, passamos ao sol e às flores das magnólias. Reparei neste dia que já havia abelhas. De volta das flores. Outro sinal.
    Quis partilhar o silêncio. As flores no meio do silêncio. E o tempo a passar por tudo.
    Enquanto antecipo a explosão de rosa e vermelho das azáleas japónicas. Está quase. É só esperar que o sol se mantenha.

    Um beijo de boa noite para a Fa.

    PS: Vou tentar reproduzir a sua receita de empadão com arroz. Depois digo como correu:)

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