As mesas de um dia de chuva.



Ainda a chuva. O frio e o vento. E o bom da chuva, do frio e do vento. O aconchego. E demorarmo-nos à mesa. Em casa. E em casa de amigos. Sempre quentes, os lugares onde há afecto. Onde as mesas são pretexto para nos rodearmos de coisas que nos aquecem por dentro.
A mesa de almoço. Faiança portuguesa recuperada. Vinda dos lugares remotos habitados pelas memórias de infância. Toalhas de linho com iniciais de avó bordadas. A presença de uma mulher da casa. Uma mulher que era uma casa. Que é memória. Feita de rendas e chávenas de chá. De tabuleiros orientais e móveis delicados. Quadros a carvão e faiança portuguesa. E um livro precioso. Receitas da comida que surgia das mãos da mulher que era uma casa. O livro que me foi confiado, com caligrafia desenhada. A mesa-homenagem. A uma avó que fazia muita comida. Memória conservada, que perdura.
E a tarde. Que foi de chá em casa de amigos. Dos amigos que estão a começar a ser uma casa. Muito nórdica, muito de arquitecto. Depurada e quente. Loiça branca e tapetes quentes cor de mel. Narcisos frescos em água. Compotas ácidas e chocolate com avelãs de Milão. Chá de laranja. Biscoitos de lata. Coisas que são a casa dos meus amigos. E a música do amor dos meus amigos. A que é o amor, quando ele se deu. Quando aconteceu na vida de um e de outro. Até ao dia de hoje. Hoje é sempre o dia mais importante de todos. Por ser agora. A música deles. Cat Power. Where is my love.

http://www.youtube.com/watch?v=-spSpupl-4g

8 comentários:

  1. Que bom o teu domingo!....
    E que mesas tão bonitas. Tanta gente à mesa. Os presentes e os lembrados pelas peças recuperadas. De alguém que era uma casa!... Receber e ser Recebida. As duas faces da mesma moeda. Generosidade e gratidão. Amizade. E muito sono querida Mar...
    Até amanhã minha amiga doce.
    Babette

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  2. Um domingo muito calmo. Muito de casa. A minha. E a dos meus amigos. Que casaram em Dezembro. Uma casa no início. E a avó do meu marido. Na mesa. Pelas peças que deixou. Que foram dela. Que são ela.

    Um beijo de boa noite para a minha amiga com sono:)

    Da Mar (também com sono).

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  3. Mesas muito bonitas e cheias de significado.
    Também tenho uns pratos iguais aos seus (ainda por trazer de Coimbra), herança muito estimada e querida. :-)
    Se as fotos estiverem boas, hei-de pôr no meu cantinho porque me lembrei tanto de si no f-d-s.
    Sandra

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  4. Olá Sandra:

    As mesas significam sempre coisas, não é? Que bom partilharmos uma herança estimada.
    Acho muito precioso que alguém se recorde de mim. Principalmente nesta circunstância: por não nos conhecermos. Não obstante todas as palavras que vão sendo trocadas.
    Uma espécie de registo quotidiano dos afectos.
    Já percebi que é de Coimbra. E que esteve lá este fim-de-semana. Que curioso. Se calhar, cruzámo-nos:) Fale-me desse restaurante italiano onde esteve. Na sua cidade, vou sempre ao Zé Manel dos Ossos. E uma vez à Quinta das Lágrimas. O apelo deste restaurante/tasca é sempre mais forte:)e acabo por não conhecer outros.

    Um beijo da Mar. Para a Sandra de Coimbra.

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  5. Olá, Mar
    Gostei muita da expressão "receitas que surgiam das mãos de uma mulher que era uma casa". É uma ideia muito bonita. Sinto que se aplica totalmente à minha mãe. Também ela era, e, continua a ser de uma outra forma, a alma da casa. Recordo-me que uma vez teve uma amiga brasileira que passou uns dias lá em casa e que esta lhe disse que nunca esqueceria o odor sempre presente de um forno aceso onde se assavam maçãs, bolos, carnes, etc.. Também me sinto reconfortada e em paz quando consigo reproduzir esses aromas na minha casa. bjs

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  6. Olá Fa:

    Para mim, as mulheres são uma casa. Podem significar uma palavra tão elementar, tão tangível como "casa". Exactamente pelas coisas que referiu, a propósito da sua mãe, que é a alma da casa. E sabe, reconheço essas palavras em cada uma das suas receitas de assados. Carnes misturadas com frutas e vegetais. Pêras, abóboras, maçãs. Aromas doces, de mulher com mãos de fada e alma de casa. A sua mãe está aí, decerto. Nos assados de que gosto tanto, que têm sempre um aspecto irresistível!

    Um beijo para a Fa. E para a sua mãe. Da Mar.

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  7. Esta fotograafia dos pratos da Fábrica de Sacavém têm o dom de nos fazer imedatamente lembrar casas vividas, são boas recordações de dias de azáfama e de calor em cozinhas com fogões a lenha, com o cheiro da madeira misturado com a dos assados domingueiros, e por fim, as tardes inteiras em volta da mesa. Na casa da minha tia com trança, uma mulher casa com um nome invulgar, é Umbelina.
    Marcaram um tempo estes pratos. A fabrica fechou, e são reliquias, sem ninguém saber.

    Já na minha casa, ainda só branca na mesa, ficaram muito bonitos os narcisos, com o tempo que passámos no chá e no pão de ló de laranja. Lindas as tuas fotografias e as tuas palavras.
    O primeiro de muitos chás,
    obrigada.
    um beijinho,
    da Pipinha
    com The National

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  8. Para a Pipinha:

    Muito bom o chá de laranja. O pão-de-ló de laranja. E os narcisos. Melhor ainda a conversa. Coisas nossas. As nossas palavras. Trocadas desde há muito. Antes das casas. Dos trabalhos e dos horários. Mas sempre sentadas a uma mesa. Tu com um copo de água, sempre. A acompanhar o que fosse. Tão frugal:)

    A minha amiga de muitos chás. De muitas coisas.

    Um beijo da Mar. Da Isa:)

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