Reconciliação (definitiva?) com os espargos

Tenho muito cuidado com as palavras. Daí a interrogação prudente junto a um termo tão definitivo. A verdade é que enquanto estava grávida, enjoei de espargos. Do aroma, do sabor, da textura. De tal forma que, a partir daí, cozinhar estes vegetais tão bonitos se transformou numa espécie de renovação dos meus votos, uma vez que o meu belo filósofo os adora.
E hoje, depois de um dia difícil, deu-se o momento da reconciliação. Sim, um dia difícil. E interminável. Confuso. Feito de solicitações repetidas. E claro, uma página inteira de coisas para fazer. Registadas na minha agenda. Mas a melhor parte de cada um dos meus dias difíceis é a de me recordarem os recursos que há em mim para os resgatar dessa condição. Porque quando tudo é mais difícil, é quando sinto mais o apelo. De cozinhar. De ouvir música. De olhar prolongadamente o meu filho. E de partilhar um copo de vinho tinto com o homem que adora espargos. Então, quando cheguei, a música muito luminosa dos Expensive Soul tinha invadido a casa. Tão forte, o efeito da música. A apoderar-se do meu dia difícil. E a dizer-lhe para ficar à porta.
Do meu dia difícil, surgiu esta massa. Tagliolini com espargos verdes e queijo. Uma massa feita da música que mistura hip-hop orquestral com soul. E da imagem do meu filho a integrar a música no corpo pequenino de cinco anos. Irresistível vê-lo a dançar:)
Foi assim que tudo aconteceu:
Uma cebola picada, metade de um pimento laranja, rabanetes cortados às rodelas e azeite. Ao lume durante uns cinco minutos. Salpicados com um pouco de vinho branco. Acrescentados com tomate cortado em pedaços. Depois, deixei que estes ingredientes tivessem mais uns minutos escassos de descanso e acrescentei um molho de espargos frescos. Entretanto, juntei água quente suficiente para cozer um pacote de tagliolini. E deixei ferver, antes de juntar a massa. Passados cinco minutos, estava pronta. A pedir sal, mais azeite e queijo mozzarella.  E um prato fundo, para se manter quentinha e para o queijo se fundir daquela maneira a que é difícil resistir.
O vinho tinto é Falcoaria (2006). E soube-me a frutos vermelhos maduros. E ao início da noite de um dia complicado. O dia em que o sabor e o aroma dos espargos deixaram de me ser insuportáveis.

PS: Emília, vou seguir a sua sugestão e, no domingo, pretendo andar pelas ruas e praças de Aveiro, em busca de beleza, na Feira de Velharias. Une quête. Até lá, ainda há sexta-feira e sábado para viver:)

7 comentários:

  1. Tive neste momento o prazer de ler os seus post desta semana, a que tinha faltado sem os poder "saborear", como é meu hábito, diáriamente...e...pausadamente! Mesmo assim, por "atacado" foi um momento muito bom, usufruir das belas narrações com que aqui nos brinda! Um encanto a sua história de como enjoou na gravidez, os espargos; à minha filha aconteceu com cogumelos! E que bela prova de amor para com o seu marido voltar às receitas dos mesmos! Esta parece-me bastante original e tem muitos legumes, o que só valoriza. Por exemplo, não conhecia receitas de rabanetes sem ser crús.
    Um beijinho e bom fim de semana ( e ...boas velharias!)

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  2. Tive saudades dos seus comentários:) Ainda bem que gosta das histórias que estão associadas à comida, às receitas. São para mim indissociáveis, essas dimensões. Esta massa soube-me mesmo bem. Tão bem, que me fez voltar a gostar de espargos. Pena a fotografia.
    E uso aqueles vegetais encantadores (os rabanetes)em quase tudo: risotto, outras massas, salteados de vegetais. Porque gosto do colorido e da textura.
    Um beijo de bom fim-de-semana para si!

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  3. Olá, Mar
    É sempre um prazer ler os seus textos. Partilho consigo as evasões culinárias em momentos de muito trabalho.
    Bom fim-de-semana

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  4. É mesmo de evasão que se trata. Das coisas que nos fazem mal. Ou que nos cansam. Assim, no final do dia, as pessoas que gostam de fazer coisas com as mãos, integram tudo. E transformam os dias em momentos fugazes de felicidade que se podem comer ou contemplar.
    Obrigada por gostar de me ler. Eu também gosto de a ler a si.

    Beijo para a Fa. Que gosta de cozinhar e fazer coisas belas com os dias. Bom fim-de-semana!

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  5. Mar
    Experimentei o seu bolo de alho francês! Delicioso.Deixei-o em cima da mesa da cozinha, às seis da tarde, para ser apreciado por três homens ávidos de novos sabores. Já não chegou à hora de jantar!Adoraram. No entanto,achei que não cresceu como o da Mar e ficou meio enqueijado.Talvez o facto de não o cozer em forma de alumínio! Será? Estes pormenores só eu notei porque vi a fotografia do seu.Obrigada pela partilha que também a mim ajuda a enfrentar tantas grelhas, tantas reflexões, monitorizações, avaliações...aflições...Falo da vida profissional...
    Oxalá a "quête" por Aveiro possa acrescentar algo de belo ao seu dia-a-dia, mais uma história à sua história.
    Um abraço
    Emília Melo

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  6. Ah,aquele belíssimo centro de mesa verde! Já o tinha admirado num outro post e tinha-me parecido ser Arte Nova.A Mar tem-me aguçado o apetite de dar uso quotidiano a esses objectos de excepção!Obrigada!
    Bom fim de semana!
    Um beijo
    Emilia Melo

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  7. Olá Emília!

    Fico feliz que o bolo de alho francês tenha sido apreciado. E que não tenha chegado à hora de jantar:)Para não correr o risco de a massa ficar dessa forma que descreveu, costumo bater (mesmo) muito no início, à velocidade máxima, até ficar com aquelas bolhas.
    E sim, às vezes a vida lá de fora, consegue ser avassaladora. Cheia de momentos em que sentimos que não somos capazes. Eu procuro preservar-me disciplinadamente de tudo o que me possa fazer mal. Às vezes não consigo. Só às vezes.
    E eu sabia que iria gostar do centro de mesa art déco. Um impulso meu. Gostei dele de uma forma imediata e trouxe-o para a minha mesa.
    A ver se amanhã encontro daqueles objectos que acrescentam. Para depois partilhar.

    Um beijo de bom fim-de-semana!

    Mar

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