Domingo no mundo.


Domingo no mundo. E aqui. Um dia dedicado à procura. Encantada de momento em momento. Copos isolados, estatuetas em marfim, taças em cristal, chávenas de chá, jarras dos anos trinta, licoreiras. Todos os objectos que se possa imaginar. Usados, postos de parte em algum momento da sua história. E ali. À espera de se converterem novamente em algo que seja significativo para alguém. Nestas circunstâncias, não consigo não pensar no que terá acontecido antes. De onde vieram aqueles objectos, as pessoas e as casas que conheceram. Penso sempre em pessoas. Nos donos dos copos de cristal e dos talheres de prata desaparelhados. E nas mulheres que usaram as jóias. Porque é triste abdicar de uma jóia. Por serem, normalmente, sinais evidentes de momentos que terão sido felizes. Então, sempre que escolho trazer algo para casa, tento que seja realmente significativo, especial. Por querer muito render a devida homenagem aos que existiram antes. Neste particular, devo dizer que me custa a parte das jóias. Não costumo comprar, por me fazerem pensar em coisas tristes. Imagino mulheres, forçadas pelas vicissitudes da vida, a separarem-se de objectos estimados. E, por essa perspectiva um pouco romântica, confesso, deixo ficar.
No meio de tantas coisas à espera de uma nova casa, de um novo contexto, de uma nova vida, surgem os que se destacam. Os que quero fazer meus, para os contextualizar. Para dar continuidade à sua história. E imagino-os à minha mesa ou em pontos da casa e até do jardim. Recolho-os tranquilamente, disposta a conferir-lhes significados novos. Desta vez, uma peça em marfinite, que baptizei de Chloé e que se transformou num centro de mesa. E copos de cristal debruados a ouro. Licoreiras com flores gravadas. E duas peças que tornaram o meu jardim um sítio mais bonito.
Um domingo no mundo. Um domingo em que procurei acrescentar coisas ao meu mundo.

PS: Estou grata à Emília Melo. Pela sugestão que tornou o meu domingo tão de guardar. Pelos objectos a que dei uma vida nova.

4 comentários:

  1. Mar
    Estou a imaginá-la a chegar a casa com embrulhos desajeitados. Sacos de plástico que não fazem adivinhar as preciosidades que encobrem...O seu cuidado a desnudá- las...a lavá-las para melhor apreciar os pormenores...o brilho...E depois...escolher o melhor local para lhes poder dar uma nova vida...e delas receber novas vidas!
    Parabéns pelo belo texto!
    Recordando Saint Exupéry,consegue "cativar-me" e, de certeza, a todos que a lêem!
    Obrigada. Um abraço
    Emília Melo

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  2. Passei o dia de ontem a pensar por onde andaria a Mar, e que coisas deliciosas teria descoberto. Estou a ver que a ida correspondeu às expectativas. E eu penso muitas vezes na alma dos objectos. Que felizes devem estar por terem de novo uma casa, um dono, um lar!...
    Beijos e desejos de uma semana feliz.
    Babette

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  3. Para a Emília:

    É a si que devo agradecer este domingo bem passado. E os gestos que prolongaram a minha ida à Feira de Velharias, em Aveiro. E então, o meu regresso a casa foi como descreveu: com sacos e embrulhos desajeitados. E o depois, que foi encontrar o contexto certo para o conteúdo dos sacos desajeitados.
    Obrigada por mais palavras generosas. Guardo-as com carinho. Na expectativa de poder retribuir a generosidade.

    Beijo da Mar

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  4. Para a Babette:

    E eu também me lembrei de si. Apesar de nunca nos termos visto. Mas imaginei-a a fazer coisas boas com o dia.
    A ida à Aveiro correspondeu muito ao que tinha esperado. Tanto, que os objectos com alma que de lá vieram, conseguiram encontrar um lugar na minha casa. Como se existissem aqui desde sempre.

    Beijo de boa semana!

    Mar

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